quinta-feira, 20 de julho de 2023

Adolescentes ucranianos em áreas ocupadas: doutrinação e até treinamento.

 


Transformar jovens em defensores fanáticos da ideologia neoimperial russa é um dos piores crimes cometidos pelos invasores. Vilma Gryzinski:


Uma questão para os líderes que vão se desmanchar em rapapés diante de Vladimir Putin (a Celac foi só um aperitivo) na próxima reunião dos Brics, na África do Sul: como explicam a doutrinação forçada e até o sequestro de menores na áreas ucranianas ocupadas pela Rússia?

Essa é algo difícil de engolir, embora os apologistas que inventaram até a jurisprudência GPS — se você está bem longe da Rússia, os crimes de guerra não parecem assim tão graves ou até nem parecem crimes — sempre vão encontrar uma desculpa.

É por causa do sequestro e envio de crianças e adolescentes da Ucrânia para a Rússia que Putin tem uma ordem ide captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Também este é o motivo pelo qual Paul Mashatile, o vice-presidente da África do Sul, o país anfitrião, está tentando convencer Putin a não comparecer à cúpula. Na ausência de golpes ou levantes, Putin obviamente pretende ir e mostrar quantos países não aderiram aos boicotes e sanções do qual participam Estados Unidos, Europa, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Austrália — só gente ruim, não é?

Os ucranianos calculam que 18 mil menores foram transferidos para a Rússia. Lembra, tragicamente, o monstruoso programa de “germanização” forçada instituído pela Alemanha nazista na Polônia ocupada: crianças com traços “arianos” eram sequestradas nas ruas e convertidas à ideologia nazista em campos ou lares adotivos. Como tantos outros números da catástrofe sem comparações que foi a II Guerra Mundial, não há certeza sobre quantas crianças polonesas sofreram essa violência inominável. Calcula-se que foram de 30 mil a 200 mil. As que não se adaptavam ou tinham “defeitos”, sob o ponto de vista racial nazista, eram eliminadas.

O jornal The Telegraph publicou uma reportagem sobre o modo como jovens ucranianos que moram nas áreas ocupadas são submetidos à “russificação”, desde os livros escolares que exaltam o dever de defender a pátria russa e ensinam que “os nazistas e a Otan” são responsáveis pela guerra, até o envio de crianças e adolescentes para “acampamentos” na Rússia.

Em alguns casos, os alunos são forçados a “escrever cartas de agradecimento aos soldados russos” — os mesmos que cometeram atrocidades em seu próprio país.

“É uma luta para conquistar a população infantil, para ganhar suas mentes e submetê-las à russificação, usando-as no futuro como armas contra a Ucrânia”, disse ao jornal britânico Mikola Kuleba, que coordena a ong Save Ukraine e ajudou algumas centenas de casos em que mães ucranianas conseguiram entrar na Rússia e recuperar seus filhos.

O jornal também publicou fotos tiradas em um “acampamento de verão” na Chechênia para onde foram mandados duzentos adolescentes “problemáticos”. Eles receberiam “um programa abrangente de educação patriótica e espiritual”.

Há registros de cenas em que os jovens aparecem treinando com armas de guerra.

O atual líder da Chechênia, uma república caucasiana muçulmana que foi arrasada ao tentar declarar independência, Ramzan Kadirov, é um dos mais extremados defensores de Putin. A reputação de ferocidade na guerra ficou algo chamuscada pelos posts fantasiosos no TikTok, inclusive um no qual Kadirov finge estar em território ucraniano, mas vários indícios comprovam que estava na Rússia. Obviamente, ele é muito melhor quando se trata de doutrinar adolescentes e convertê-los ao neoimperialismo russo.

O exemplo mais conhecido de “cooptação” é o da própria comissária para assuntos infanto-juvenis, Maria Lvova-Belova: ela adotou um menino de 17 anos da cidade de Mariupol, Filipp Golovnia, supostamente abandonado pela família na cidade totalmente destruída. A versão é contestada por familiares. Além de Putin, Maria Lvova-Belova, que sempre aparece como “salvadora” de crianças na mídia russa, também é alvo de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional.

A questão nos territórios ocupados é, obviamente, complexa. Há ucranianos de origem russa que abraçaram totalmente a conversão de suas localidades em parte da Rússia, há os que simplesmente tentam sobreviver sob a nova ordem e há os que têm que fingir que aceitam a russificação, sob risco de retaliações. Quando forças ucranianas conseguiram retomar algumas dessas localidades, foram recebidas com comemorações nas ruas. Muitos ucranianos de língua russa se voltaram contra os invasores quando suas casas e suas cidades foram bombardeadas e destruídas.

Iulia Dvornichenko contou ao Telegraph o que ouviu de seu filho mais velho, depois que ela passou um ano e meio presa, sob acusação de espionar para a Ucrânia. “A Rússia é um grande país que está nos ajudando”, disse o menino, na época com nove anos.

É claro que nada disso será tratado na cúpula do próximo mês na África do Sul. Possivelmente, surgirão novas propostas para obrigar a Ucrânia a aceitar suas perdas territoriais, aproveitando o momento em que a contraofensiva não está quebrando as defesas russas nem alcançando os principais objetivos estratégicos, como o de cortar a continuidade da faixa territorial ocupada no lado leste do país.

Um ex-assessor de Volodymyr Zelensky sugeriu que uma das opções para o fim da guerra poderia ser a Ucrânia trocar os territórios sob ocupação pela entrada na Otan, o que garantiria a proteção, armada se necessário, à independência do país. A sugestão, feita por Oleksi Arestovich, mostrou que a questão de um futuro acordo, obviamente, está rolando. Ele falou nos seguintes termos: “Os territórios ocupados continuam ocupados, fora do controle da Ucrânia. Ficamos com 80% do nosso território, a guerra acaba e entramos na Otan. Muitos diriam que é uma superoportunidade histórica”.

Já a probabilidade é próxima de zero. A última cúpula da Otan mostrou a relutância em aceitar a Ucrânia na aliança ocidental.

Arestovich também disse que ele preferiria uma outra opção, “a marcha pela justiça parte dois” — uma referência ao mal explicado levante do chefe mercenário Ievgueni Prigozhin, com a possibilidade implícita de derrubada de Putin.

Não parece estar no cenário. Mas os participantes da cúpula na África do Sul não deveriam ficar muito tranquilos nos seus rapapés: a história nos mostra que nada, nunca, é garantido na Rússia.

O Brasil está mudando. O tempo todo.

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