quinta-feira, 20 de julho de 2023

A censura está de volta

 



Filmes como 'O silêncio dos inocentes', que trata de um transexual que mata mulheres por não aceitar o próprio corpo, seriam inconcebíveis hoje em dia. Josias Teófilo para a Crusoé:


Durante a eleição de 2022 aconteceu um fato sem precedentes na historia do audiovisual brasileiro.

O infoproduto do Brasil Paralelo – que não havia sido lançado, nem visto – sobre a facada em Jair Bolsonaro, foi censurado pelo STF. O ineditismo da censura se deve ao fato de que o infoproduto não havia sido exibido e nem visto, o critério foi baseado no tema e na posição política da empresa produtora.

Nem os governos militares censuraram obras audiovisuais dessa forma. Eles viam o filme, mesmo já estando em cartaz, e censuravam trechos ou o filme inteiro, fazendo um relatório com a justificativa para a censura.

Em março de 2022, o deputado estadual do Ceará André Fernandes fez um vídeo acusando o filme Como se tornar o pior aluno da escola, baseado no livro de Danilo Gentili, de apologia à pedofilia. Criou-se uma grande polêmica nas redes sociais. Manifestaram-se contra o filme Mario Frias, então secretário de cultura do governo Bolsonaro, e o deputado Eduardo Bolsonaro. O ministro da Justiça, Anderson Torres, determinou a retirada do filme das plataformas de streaming — no que foi solenemente ignorado, tal a absurdidade da determinação. O filme não é uma apologia da pedofilia, apenas mostra um personagem pedófilo, interpretado por Fábio Porchat.

Esses dois casos mostram que a pauta da censura está de volta. E não se trata só de censura, mas também de autocensura. A Disney, por exemplo, resolveu fazer uma versão politicamente correta de Branca de Neve e os Sete Anões sem os anões.

A HBO Max retirou do ar o clássico E o vento levou por considerá-lo racista. Clássicos como O Silêncio dos Inocentes, filmes de Clint Eastwood da década de 1970 e até mais recentes como Superbad, são impensáveis de serem realizados hoje em dia.

Especialmente O Silêncio dos Inocentes, que trata de um transexual que mata mulheres por não aceitar o próprio corpo, não seria concebível em um grande estúdio hoje em dia.

Como regredimos a esse ponto?

Já tratei aqui do politicamente correto, de como ele é incompatível com a produção artística e da incompreensão típica que obras de arte em geral sofrem.

A censura hoje se manifesta de várias formas: a estatal (como o exemplo do STF durante as eleições), a corporativa (das grandes empresas produtoras), a autocensura – que teme, exatamente, a censura e suas consequências.

Com o advento das redes sociais, ampliou-se muito o debate sobre arte e cultura, mas não necessariamente o debate tornou-se mais qualificado. As redes tornaram-se palco para uma militância aguerrida e não raro irracional que quer melhorar o mundo controlando o que é dito e o que é feito no âmbito da cultura. Isso está na direita e na esquerda. Porém existe uma diferença fundamental: a esquerda hoje tem um poder muito maior de censurar. Ela ocupou postos-chave nas grandes corporações, e tem tido grande influência através de organizações do Terceiro Setor (ONGs, por exemplo), e no próprio Estado.

Josias Teófilo é jornalista, escritor e cineasta

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