terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sabedoria de mendigo



Era uma vez uma cidade muito gelada, como gelada também era a relação entre os seus habitantes.


Viviam isolados, cada qual em sua própria casa, indiferentes aos demais.


Um dia, um mendigo chegou à cidade.


Sofrendo com os açoites do vento e com a fome que lhe castigava o estômago, ele bateu na porta de uma daquelas casas.


Mal a porta se abriu, uma voz rouca espantou o pedinte, que pensou muito antes de bater na próxima casa.


Foram mais gritos e xingamentos.


Quando se levantou para seguir seu caminho, em busca de uma cidade mais acolhedora, percebeu que havia uma porta entreaberta. Era a porta do templo que se abria e fechava com o movimento do vento.


Foi entrando devagarinho...


Encontrou o guardião do templo e seu ajudante, ambos congelados pela mesmice daquela cidade cinzenta e fria.


Cumprimentou, limpou a garganta, provocando um ruído forçado, tentando obter alguma atenção. Tudo em vão.


Então, ele falou bem alto:


Que pena que não poderei fazer aquela sopa quentinha, para espantar o frio e matar a fome.


Sopa?!, falou interessado o velho guardião.


Sim, eu sei fazer uma deliciosa sopa de botão de osso.  São necessários seis botões, mas eu tenho apenas cinco.


Eu não tenho nenhum botão de osso. Foi a resposta.


Mas o alfaiate poderá nos ajudar, interveio o ajudante, animado.


A vontade de tomar uma sopa quentinha fez com que buscassem o alfaiate.


Ali também morava a má vontade, que somente desapareceu com a palavra mágica: sopa.


Ele providenciou o botão, com uma condição: iria junto para ver o milagre da tal sopa.


O mendigo pediu também uma colher de pau, uma panela grande, uma faca, e outras coisinhas mais...


E foi assim que o guardião do templo, seu ajudante, o alfaiate e sua sobrinha saíram pelas ruas, batendo de porta em porta para pedir os utensílios necessários para se fazer a sopa de botão de osso.


Uma a uma, as pessoas foram se juntando, na praça, até que tudo havia sido providenciado.


O mendigo provou e disse que a sopa estava boa mas, poderia ficar ainda melhor se alguém trouxesse um pouco de cenoura, repolho, sal, pimenta, alho, e outros ingredientes.


As pessoas se lembravam que tinham alguma coisa em suas despensas. E mais e mais ingredientes foram surgindo.


E todos que foram se achegando, trazendo algo mais para tornar a sopa mais substanciosa, mais deliciosa, foram se olhando, trocando ideias sobre o resultado daquela movimentação toda.


A sopa ficou pronta. Todos se serviram. Mais de uma vez.


Surgiu até alguém para tocar um acordeão e o povo dançou e dançou, a noite toda.


No dia seguinte, não faltaram portas se abrindo para o mendigo se abrigar do frio.


Como ele tinha que seguir o seu caminho, despediu-se e se foi, não sem antes deixar os botões milagrosos para que aquela população pudesse continuar fazendo a sopa.


Muito tempo se passou. Os botões foram se perdendo, um a um...


Mas todos já haviam descoberto que o verdadeiro milagre não estava nos botões, e sim na solidariedade que agora reinava entre eles.


Esse fora o maior milagre realizado pela sabedoria de um mendigo.

..... com base  no livro Sopa de botão de osso, de  Aubrey Davis, ed. Brinquebook.

Em 22.1.2024.

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