domingo, 14 de setembro de 2025

Quando chegar a minha vez

 


A notícia me surpreendeu, pela madrugada. Em acidente de trânsito, perdera a vida física o filho de uma querida amiga.


Imaginei o quanto ela deveria estar com a alma estraçalhada. Embora, como eu, guarde a convicção da vida imperecível, a morte continua a nos assustar, quando se apresenta.


Por vezes, quase nos tira o chão. Parece irreal.


Hoje foi um jovem, no vigor dos anos. No entanto, nos últimos meses, tenho assistido a partida de muitos amigos, voluntários, conhecidos.


Nesses momentos, penso: Ele estará bem? Estava preparado para essa saída do mundo palpável?


De repente, me surge a indagação: E se a morte me visitasse hoje, eu estaria pronto para seguir com ela?


Teria aquela tranquilidade de Francisco de Assis que, enquanto trabalhava em seu jardim, ao ser perguntado o que faria se soubesse que a morte o viria buscar nesse dia, respondeu: Continuaria capinando?


Ele vivia tão bem os seus dias, que trazia a alma em perfeita harmonia. Poderia partir a qualquer momento.


No entanto, eu, ante essa pergunta, de forma rápida fui repassando pela mente: o seguro de vida está quitado. Isso dará aos que ficam o prosseguimento das suas vidas, sem percalços.


O convênio funeral igualmente está em dia. Então, os familiares não passarão por dissabores com preparativos e valores para o sepultamento do meu corpo.


A senha da conta corrente está em mãos de parente querido, débitos a serem saldados, recursos a serem recebidos, uma lista enorme, tudo em mãos hábeis, para as providências.


Pensei: Posso partir, sem susto.


Então, num flash, uma ideia atravessou minha mente.


Lembrei do episódio do Evangelho em que Jesus relata a história do homem que mandou erguer mais celeiros, para guardar todos os seus frutos, pensando, depois, que poderia descansar, comer, beber e folgar.


Mas, conclui o mestre: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma.  E o que tens preparado, para quem será?


Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus.


Dei-me conta de que estou agindo exatamente como esse homem.


Se a morte me vier buscar, agora, qual a bagagem que poderei levar comigo?


E me questiono: Quais virtudes coloquei no baú da alma, para apresentar perante o tribunal da consciência, na Espiritualidade, na qual adentrarei?


Que boas ações pratiquei para enriquecer o enxoval para a nova vida?


Terei semeado mais amizades, afeições do que inimigos e desafetos?


Fui colocando na mala, para essa viagem final, tudo de que me lembrava.


Descobri que nem preciso de uma mala, bastará uma pequena, muito pequena valise de mão.


Assustei-me. Tantos anos vividos. Tão poucas realizações. Cresci no intelecto, conquistei títulos acadêmicos, venci no mundo em várias facetas.


Somente esqueci de semear bem-aventuranças em minha alma.


Preciso apressar-me. O tempo urge.


Permita Deus que novos dias se multipliquem para que eu possa acrescentar mais alguns bons itens na bagagem espiritual.


Alvorece o dia, a hora se faz de urgência.


Ponho-me a caminho, enquanto as horas avançam...


Será este o meu último dia?


..... com citação do  Evangelho de Lucas, cap. 12, itens 19 a 21.

Em 17.2.2023.

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