terça-feira, 17 de outubro de 2023

Questão ética: presidente de Israel resume o “dilema do míssil na cozinha”.

 



Como combater uma organização armada cujo modus operandi fundamental é se esconder entre a população civil? Yitzhak Herzog faz uma pergunta. Vilma Gryzinski:


Israel fixou para si uma tarefa impossível: “varrer da face da Terra” os terroristas que mataram, mutilaram, estupraram e queimaram vivas 1 300 pessoas.

É impossível porque não é uma guerra convencional. Os lideres do Hamas vivem nos subterrâneos de Gaza, entre a população civil que colabora com eles, de boa ou má vontade. Daí as cenas terríveis, de civis mortos ou desabrigados, sem ter onde se refugiar — inclusive em países árabes que fazem declarações pomposas de apoio, mas não querem saber deles.

Coloca-se assim uma questão ética que não é fácil de responder: o que o leitor faria se estivesse no lugar de líderes políticos e militares de Israel? Deixaria tudo como está para evitar o sofrimento da população de Gaza? Só se defenderia de ataques com mísseis? Esperaria que eles chegassem para reagir? A morte de 1 300 crianças, mulheres e homens passaria em branco?

O presidente de Israel, Yitzhak Herzog, desafiou um grupo jornalistas com esse dilema.

Um deles perguntou se os civis de Gaza deveriam pagar o preço por não se livrarem do Hamas, tornando-se, consequentemente, alvos legítimos. Herzog, um advogado fino e educado, criado na tradição se esquerda do Partido Trabalhista, que desistiu da política partidária e foi eleito presidente, como o pai, Chaim Herzog, perdeu um pouco a paciência.

“Eu não disse isso. Mas com todo respeito, com todo respeito, se você tem um maldito míssil na sua cozinha e quer dispará-lo contra mim, eu tenho o direito de me defender?”.

O jornalista insistiu que a questão não era essa.

“Esta é a situação. Os mísseis estão lá. O botão é apertado, os mísseis são disparados da cozinha contra os meus filhos”.

Raramente Herzog foi visto falando de forma tão veemente. Os “mísseis na cozinha” não são uma questão retórica. Muitas casas em Gaza são efetivamente usadas com diferentes fins militares. Moradores comuns também podem ser convocados para “ajudar”, como aconteceu no 7 de outubro, com cidadãos sem fardamento nem armas transportando reféns israelenses para Gaza.

O presidente de Israel tem funções puramente cerimoniais e, quando há eleições sem resultados muito definitivos, uma situação recorrente no país, ele convida o partido majoritário a formar uma coalizão. Se não der, vai para o minoritário.

Herzog tentou também fazer uma proposta que conciliasse direita e esquerda na questão explosiva da reforma do judiciário, que dividiu gravemente o país. Foi solenemente ignorado e até ridicularizado pelos radicais de direita que se aliaram a Benjamin Netanyahu.

A situação política está péssima para o primeiro-ministro: nada menos que quatro em cada cinco israelenses, o responsabilizam pela desmobilização que permitiu a entrada em massa dos homens do Hamas que barbarizaram na região fronteiriça. Uma maioria arrasadora de 86% culpa o governo. Praticamente toda a população — 94% — acha que o governo tem que assumir alguma responsabilidade e 56% acredita que Netanyahu deve renunciar assim que a guerra acabar. A situação do ministro da Defesa, Yoav Gallant, não é muito melhor: 52% querem sua renúncia no devido tempo.

Netanyahu, o mestre da sobrevivência política, sabe disso perfeitamente. E a situação só vai piorar: as famílias dos cerca de 200 reféns vão pressionar por um acordo que liberte as vítimas e as principais autoridades políticas e militares têm que escolher se continuam os bombardeios, mesmo sabendo que podem atingir reféns colocados nos alvos para ser deliberadamente mortos.

O que o leitor faria no lugar deles? Matar seus próprios cidadãos? Suspender os bombardeios?

Tudo isso, podem ter certeza, é discutido pelos responsáveis israelenses com um enorme senso de urgência. O país está sendo obrigado a mudar radicalmente. Os ataques “estilhaçaram em mil pedaços décadas de falsos paradigmas e pensamento estratégico equivocado”, escreveu no Jerusalem Post o especialista em estratégia David Weinberg.

Um resumo do que mudou. Primeiro, “a crença de que a República Islâmica do Irã e seus exército genocidas terceirizados, como o Hamas ou o Hezbollah, podem ser cooptados ou contidos”.

Segundo, que o Hamas, tendo dois milhões de pessoas para governar, se tornaria mais “responsável”, “moderado” ou “maduro”.

Também implodiram ideias como propor a prosperidade para os palestinos “como um antídoto à ideologia islamista radical e à educação para o genocídio”.

A análise duríssima de Weiberg termina concluindo que “pelo menos por uma geração, Israel não terá condições de tolerar um estado palestino independente. Qualquer estado desse tipo, digamos na Cisjordânia da Autoridade Palestina atualmente conduzida por Mahmoud Abbas, poderia se tornar e muito provavelmente se tornaria um estado do Hamas”.

Mesmo quem não concorde com a análise de Weinberg não pode deixar de ver as questões enormes e existenciais que estão em jogo para Israel.

“Israel não deve responder apenas proporcionalmente ao Hamas. Precisa usar e irá usar a força desproporcional para eliminar o inimigo”, disse ele.

Diante disso, a questão do “míssil na cozinha” continua a desafiar a todos nós que queremos respostas claras e humanas — e não conseguimos encontrá-las numa situação em que, segundo o presidente Herzog, em nova entrevista, ele mesmo viu o escalpo de uma mulher “numa casa que visitei, uma casa totalmente destruída. Eles simplesmente cortaram a cabeça dela”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário