terça-feira, 3 de outubro de 2023

Loucademia de governo: Milei é o maluco, mas quem queima dinheiro é o peronista Massa.

 



O debate pré-eleitoral visibilizou defeitos e qualidades dos candidatos argentinos, inclusive do ministro da Economia que aboliu imposto de renda. Vilma Gryzinski:


Alguns institutos de pesquisa chegam a medir que Milei poderia ser eleito no primeiro turno, no próximo dia 22 — precisaria ter 40% dos votos e estar 10% à frente do segundo colocado.

Mais surpreendente ainda do que a já espantosa ascensão de Milei, o economista ultraliberal que levou Milton Friedman para o coração estatista de tantos argentinos, é que o segundo colocado possa ser Sergio Massa, o ministro da Economia que, na prática, governa o país e faz loucuras para aproximar sua sardinha da brasa, contando que num segundo turno as forças da racionalidade se aproximem dele.

Racionalidade, evidentemente, pelos padrões argentinos.

Por exemplo: como pode alguém no comando de uma economia com 124% de inflação e dólar a mais de 800 pesos, o novo normal, ser um candidato competitivo?

Massa conta com o voto dos peronistas convictos, cerca de 30% do eleitorado, que sempre votam no candidato do movimento (seria injusto chamar o peronismo de partido).

Também conta receber o voto dos beneficiários de algum, ou alguns, dos nada menos que 141 planos sociais existentes no país. Como não há nada que esteja dando errado que não possa ser piorado, Massa, num país com todo tipo de crise que se possa imaginar, em desvalorização acelerada e reservas esgotadas, apelou a uma das medidas mais eleitoreiras de todos os tempos: cortou o imposto de renda para praticamente toda a população.

Pelo Plan Platita, de nome autoexplicativo, somente 80 mil pessoas, com rendimentos acima de 2 400 dólares por mês, continuarão a prestar contas ao fisco. Para completar, será devolvido o IVA sobre a compra de produtos alimentícios a “mais de nove milhões de pessoas”.

E os ingressos perdidos, cerca de 700 bilhões de pesos? Ah, como tem gente implicante, Isso se vê depois, claro. E é claro que a maquininha que faz dinheiro dar em árvore terá que funcionar, aumentando as pressões inflacionárias.

Se for eleito, Sergio Massa prometeu um governo de união nacional, inclusive com a participação de integrantes do Juntos Pela Mudança, a frente de oposição cuja candidata, Patricia Bullrich, está enredada numa luta mortal com ele pelo segundo lugar.

Imaginem um presidente peronista (mesmo que com corrente própria, como Massa) e um ministro da Economia da União Cívica Radical, a frente oposicionista. Inimaginável, certo? E quem vai pegar o abacaxi sem ter carta branca? “Vamos ver”, calculou no Clarín o analista Ricardo Kirschbaum. “Porque Massa, no hipotético caso de ganhar, herdará um caos de criação própria”.

Por que um Massa presidente seria melhor que um Massa ministro? Teria a autoridade do voto, claro, mas pouco além disso.

As esperanças do ministro são de que os argentinos tenham mais medo de Milei do que desconfiança nele. E que não aconteçam outros desastres como o do chefe de gabinete da província de Buenos Aires, Martín Insaurralde. Com namorada nova, uma “modelo erótica”, Sofía Clerici, ele foi passar férias num iate em Marbella cujo aluguel é de 11 mil euros por dia. Patrimônio declarado dele: 600 mil pesos, o suficiente para uma garrafa e meia da champanhe que rolava no passeio. Problema: a modelo quis aparecer e colocou as fotos da aventura no Instagram.

Insarraulde foi rifado, mas o escândalo pode custar a reeleição de Axel Kicillof, o que seria um desastre adicional para o peronismo.

Cinco analistas do La Nación coincidiram em dar a vitória no debate a Milei, por ter se saído melhor nos seguintes quesitos: solidez argumentativa, reflexo político, estratégia, gestualidade, Patricia Bullrich ficou em segundo lugar. Ou seja, não foi uma boa noite para Sergio Massa, mas como ele tem a chave da loucademia de governo, ainda poderá apresentar novas surpresinhas. Temos vinte dias incandescentes pela frente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário