Como os brasileiros podem retomar a força das ruas de junho de 2013, mesmo após o 8 de janeiro. Reportagem da revista Crusoé:
O presidente Lula indicou seu advogado na Lava Jato para o Supremo Tribunal Federal (STF). Deltan Dallagnol, que comandou a maior operação contra a corrupção do país, teve o mandato de deputado cassado pelo TSE em decisão controversa, para a festa pública de José Dirceu e do advogado anti-Lava Jato Kakay. Os dois gravaram um vídeo “fazendo o L“, de Paris. A Lei das Estatais, uma das conquistas práticas da investigação, foi rasgada para que políticos possam ocupar cargos administrativos livremente e aquilo que ainda resta da Lava Jato está sob risco em seu nascedouro, com as revisões pretendidas pelo juiz Eduardo Appio, hoje afastado sob suspeita de intimidar o filho de um desembargador. Ainda assim, não há ninguém nas ruas. Se, ao longo dos últimos 10 anos, desde as Jornadas de Junho de 2013, os brasileiros tomaram avenidas inteiras por muito menos, o que explica a apatia atual?
Boa parte da resposta vem do Supremo Tribunal Federal (STF). No início do ano, as pessoas que ainda permaneciam nas ruas, acampadas em frente a quartéis, foram retiradas por ordens judiciais após a invasão das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro. Desde então, manifestantes pacíficos foram julgados com vândalos, sem distinção entre eles. Seus advogados e os defensores públicos, que se apresentaram para ajudar os réus carentes, reclamam da falta de transparência e do tempo exíguo para realizar as defesas. Com isso, muitos titubeiam na hora de voltar a gritar em público.
Mas o imobilismo se explica também por uma disputa política mais complexa. Surgiram fraturas entre a parcela da sociedade civil que se organizou após as Jornadas de Junho de 2013. O Movimento Brasil Livre (MBL), grande herdeiro dessas manifestações, chegou a aderir a um protesto em defesa do mandato de Deltan Dallagnol, agendado para o último fim de semana, mas se retirou após ameaça de boicote de grupos políticos que, até outro dia, compartilhavam a mesma trincheira. “Fomos chamados a participar dessa manifestação por Deltan Dallagnol, deputado que foi cassado em um ato de arbítrio do TSE. Prontamente, nos dispusemos a participar, a convocar participantes e a ajudar na organização. Infelizmente, a manifestação tem sido sabotada por algumas alas do bolsonarismo e nos rendido ataques”, explicou-se o MBL em nota, na qual atribui os ataques que recebeu ao “medo do STF e ódio ao grupo”.
O MBL termina a nota dizendo que “a luta contra o PT vai perdurar ainda por muito tempo, e teremos novas oportunidades para nos engajarmos na mobilização de rua”. Em entrevista a Crusoé, o deputado Kim Kataguiri (União-SP), a figura de maior destaque do MBL, disse que devem surgir nos próximos meses grandes manifestações de direita. “O governo Lula é um desastre politica e economicamente, e isso é receita para uma tempestade perfeita, para grandes manifestações contra o governo devido à insatisfação com política, economia e escândalos corrupção”, prevê. Após anos de atrito com o grupo de Jair Bolsonaro e dos desentendimentos entre a direita que emergiu após as Jornadas de Junho de 2013, a força do MBL nas ruas ainda está por ser testada.
Essa heterogeneidade e falta de sincronia que se verifica entre os vários movimentos da direita não se encontra na esquerda. Isso porque o PT sempre exerceu uma forte influência sobre sindicatos, movimentos sociais, ONGs e partidos satélites. Uma vez instalados no Palácio do Planalto, os petistas exerceram uma relação de simbiose com os demais, em que eles foram beneficiados em troca de manter a militância ativa. Esse método, que certamente não é republicano, foi bem-sucedido na maior parte do tempo. “A relação entre Estado e partido político, sobretudo quando o PT esteve no poder, era muito misturada. Você não conseguia ver onde a sociedade civil organizada começava e onde o partido político acabava, isso estava muito entrelaçado”, analisa Pablo Ortellado, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). “Não era uma relação muito saudável, porque a sociedade civil perdeu a independência. Ela estava muito amarrada a um ator político institucional.” Jair Bolsonaro, por outro lado, não chegou a organizar e comandar toda a direita, pulando de partido várias vezes e brigando com vários aliados, que passavam a ser condenados como traidores. Esses desentendimentos agora cobram o seu preço.
Mas hoje, tanto a direita quanto a esquerda parecem cansados. “A esquerda perdeu um dos grandes capitais que tinha, que era o poder de mobilização”, pontua Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria. “Durante o impeachment da Dilma, vimos que quem tinha o poder de mobilização era a centro-direita, era a turma do verde e amarelo.”
Ao longo dos anos de Michel Temer e Jair Bolsonaro à frente do Palácio do Planalto, nem esquerda nem direita lograram promover grandes mobilizações como as de 2013. Bolsonaro conseguiu reunir apoiadores em datas cívicas, como o 7 de Setembro, e a eleição de Lula desencadeou a revolta que levaria milhares de pessoas a recorrerem aos militares como último recurso. O desgaste foi inevitável. “O poder de mobilização que Bolsonaro tinha não parece ser o mesmo hoje”, continua Gabiati. “Depois de todo esse processo, há uma frustação, tanto do lado de Lula quanto do lado de Bolsonaro, que precisou ceder à política tradicional.”
Como ficou claro, contudo, a alternativa de voltar ao passado em que a sociedade aceitava tudo o que vinha de Brasília não existe mais. O que seria necessário para que os protestos voltassem?
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) diz que duvida que um barril de pólvora como aquele de dez anos atrás venha a explodir novamente — ao menos em um futuro próximo. “As pessoas agora têm posições políticas mais firmes, então um protesto tão disperso e amplo como foi o de 2013 eu acho difícil”, ponderou. Ele, no entanto, afirma que grandes manifestações de direita ainda estão no radar.
A aposta do deputado é que o grupo irá se renovar após as manifestações de 8 de janeiro deste ano, que descambaram na invasão e destruição às sedes da República. Organizados por redes sociais, dispostos a mudar a sua realidade com as próprias mãos, as cenas do início do ano são consequências diretas de 2013.
Para que essa recomposição ocorra, sem os excessos que levaram mais de 1.200 pessoas à prisão e à instalação de duas CPIs no Congresso e no Distrito Federal, é necessário, segundo parlamentares bolsonaristas, o sentimento de que a mera ida às ruas não será punida e um estímulo capaz de unir grupos que se dispersaram.
“Neste cenário jurídico incerto, em que a lei foi substituída pela vontade de alguns soberanos, é natural e perfeitamente compreensível que o temor tome lugar da bravura de ir às ruas”, diz o deputado Gustavo Gayer (PL-GO), que integra a base bolsonarista no Congresso Nacional.
“Mas vamos voltar às ruas da forma como sempre fizemos: com famílias. Idosos, adultos, jovens e crianças com suas bandeiras do Brasil“, afirma o parlamentar. “Não podemos nos curvar.”
Para outros deputados do PL, só mesmo uma ordem de Jair Bolsonaro poderia fazê-los voltar a protestar. O ex-presidente tem, no entanto, procurado se afastar dos manifestantes que invadiram a Praça dos Três Poderes, chamando-os de “marginais“.
“A gente só vai ter segurança para voltar às ruas no momento em que vier um chamado do Bolsonaro. Só isso traria a legitimidade necessária, pois ele é o presidente do partido“, diz o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP). “Sem isso, eu não me sentiria seguro. Dá até um gostinho de Venezuela na boca ao falar isso.”
O Brasil precisa hoje que as pessoas voltem a se manifestar, para que a democracia não seja totalmente solapada pelo antilavajatismo, por lobbies poderosos, por ideologias arcaicas ou pelo ativismo jurídico do STF. Fazer isso de uma maneira que não coloque a democracia em xeque, instigando um golpe de Estado, é o grande desafio dos grupos e políticos que emergiram das Jornadas de Junho de 2013.

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