domingo, 9 de abril de 2023

Corre que lá vem o arcabouço

 


O assunto é palpitante, porque eu, como aliás todos os brasileiros, sou taxadíssimo, e qualquer novidade na área faz meu coração disparar. Via Crusoé, a crônica de Orlando Tosetto:


Acordei meio tarde dia desses e, mal liguei o rádio (eu sou do tempo do rádio, como o Woody Allen), já tacaram no meu peito o tal do “arcabouço fiscal”. Ainda meio adormecido, me assustei, porque ouvi “calabouço fiscal” e fiquei com medo tanto de ofender a Democracia sem perceber, quanto de sonegar algum imposto (também sem perceber, claro: imposto é que nem mosca, tem de monte e é difícil distinguir um de outro). Depois repetiram; aí ouvi melhor e me acalmei um pouco: achei que estavam falando desse cipoal que é o mundo dos impostos no Brasil. Aí falaram mais e finalmente entendi que se trata de novidade emanada, qual miasma, do novo governo velho.

Mas que novidade exatamente? De cara me intrigou a palavra “arcabouço”, que é complicada, polissílaba e portanto inimiga do pobre (segundo diz um amigo meu, toda palavra proparoxítona ou com mais de três sílabas foi feita para enganar e atormentar o pobre). Desconfiei. Pensei: tá aí o pulo do gato. Fui ao dicionário, e eis o que descobri:

Arcabouço, s. m. 1. Conjunto dos ossos de um vertebrado. 2. Estrutura óssea do peito. 3. [Por extensão] Constituição física. 4. Estrutura de madeira de uma construção. 5. Traçado inicial de algo; delineamento; esboço.

Entendi, portanto, que o “arcabouço fiscal” é o esboço, o delineamento das intenções ou planos do novo governo velho em relação à nossa taxação. Ou seja: a maneira pela qual o novo governo velho pretende aumentar os impostos. O assunto é palpitante, porque eu, como aliás todos os brasileiros, sou taxadíssimo, e qualquer novidade na área faz meu coração disparar.

Em todo caso, coitado do pobre. Aliás, coitado também do remediado. Mas para o pobre a coisa é pior, porque o complemento “fiscal” o aterroriza ainda mais. Ele acaba entendendo, aliás com toda a razão, que o tal arcabouço é um fiscal que vem lhe arrancar os ossos do peito (e do pescoço, e das pernas, e a carne e o sangue e as tripas), ou lhe dar de paulada em cima. Uma espécie de “rapa”, só que com crachá do fisco. Imagino a turma no Parque Dom Pedro ou na 25 de Março gritando:

— Corre, corre, que lá vem o arcabouço!

Ou melhor: corre, que lá vem a derrama. Contra a qual as revoltas costumam acabar mal.

* * *

Ainda meio inconformado com esse negócio de reescrever livros segundo as sensibilidades modernas, pensei em duas coisas.

Uma delas é reescrever os mitos gregos, corrigindo-os segundo essa tal sensibilidade moderna. Acabar com o machismo de Júpiter, denunciando-o como violador (ainda se usa essa palavra?) de Leda e Europa e desmentindo essa história fajuta de que Minerva, a Sabedoria, pudesse ter brotado de sua cabeça tacanha. E acabar também com a exclusividade dos heróis: Herculéia (ou Herculana, ou, sei lá, Herculóida), e não mais Hércules. Teséia, e não mais Teseu. Perséia (ou Persoa), e não mais Perseu. Criar um Meduso, um Megero, três Parcos e três Erínios. Aliás, por que Titãs e não Titonas? Ou Titoas? E vamos arranjar uns deuses trans. Deuses trans combinam melhor com o Pégaso, não é? E que tal uma deusa mandando no Érebo? Chega de Marte: a deusa da guerra será Marta. Vamos aggiornar o Olimpo. Ou melhor, a Olimpa.

A segunda é fundar uma editora cujo catálogo seja dedicado à reescritura de obras recentes segundo os padrões da sensibilidade antiga. Ou seja, tudo ao contrário: onde tem heroína e vilão, a gente bota herói e vilã; onde tem oprimido dando a volta por cima, a gente põe opressor tratorando; onde tem operário digno, a gente põe magnata bebendo uísque e fumando charuto; onde tem líderes comunitários, a gente põe a polícia; onde a ecologia triunfa, a gente enche de estacionamentos; onde tem queijaria artesanal, a gente taca indústria de iogurte; onde tem feminista, a gente põe dona de casa; todo cabelo colorido vira escovinha, e assim por diante.

O nome da editora já está escolhido: Companhia das Tretas (sugestão de um amigo). Ainda não abri a Casa porque estou esperando, sentadinho, o Capital.

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