quarta-feira, 12 de abril de 2023

A novilíngua da diplomacia petista

 



Mauro Vieira está se gabando porque o Itamaraty voltou a ser um instrumento para a política externa indefensável do petismo. Não há o que comemorar. Carlos Graieb para Crusoé:


O chanceler brasileiro Mauro Vieira deu uma entrevista à revista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) com críticas à diplomacia do governo Bolsonaro. Como registrou O Antagonista neste fim de semana, ele disse que sua gestão retoma fundamentos que “foram substituídos, na gestão anterior, por retórica agressiva e por atitudes até infantis em relação a países cujos governantes tinham orientação política e ideológica distinta à do governo anterior.”

É fácil criticar a política externa de Bolsonaro. Nos dois primeiros anos, sob Ernesto Araújo, ela foi um delírio. Como escrevi em outro artigo, “no papel, ela era uma mistura sem pé nem cabeça de religião, nacionalismo, anticomunismo e crítica da decadência ocidental. Na prática, traduzia-se em alinhamento com Donald Trump, agressões verbais à China e discurso mentiroso sobre o meio ambiente.”

Como essa “diplomacia” trouxe riscos econômicos – especialmente ao agro, que tem na China o seu grande parceiro – Araújo foi defenestrado. Carlos França ocupou o cargo na reta final do mandato e os ânimos se aquietaram um pouco.

Os 100 primeiros dias do governo Lula representaram, de fato, a normalização do ambiente no Itamaraty. A linguagem do pragmatismo e do diálogo voltou a ser empregada. O problema é que também retornaram as deformações do petismo.

Como em tantas outras coisas, o bolsonarismo pretendeu, à sua maneira destrambelhada, reinventar o Itamaraty. O PT, ao contrário, é insidioso. Há tempos aprendeu a utilizar os velhos modos da diplomacia brasileira como um véu para o seu hábito de andar em más companhias.

É por isso que os governos petistas costumam ter dois chanceleres, um formal e um da sombra. O primeiro cuida do “business as usual“. O segundo, promove a agenda petista. Atualmente, os postos são ocupados por Mauro Vieira e Celso Amorim. Esse último tem viajado mais que o primeiro. Nas últimas semanas fez visitas discretas, sem agenda oficial, ao ditador venezuelano Nicolás Maduro e ao ditador e criminoso de guerra russo Vladimir Putin. As missões eram “promover a democracia” e “promover a paz“. Ganha um tabuleiro do War quem achar que deu certo.

“Promoção da paz“, “promoção da democracia“, “busca de um mundo multipolar“: todas essas são formas pomposas de encobrir o fato que o Brasil, governado pelo PT, sempre vai ser condescendente com regimes que se contraponham ao “poderio americano“, não importa o quão autoritários e criminosos sejam esses regimes. O coração senil da política externa petista foi e continua sendo o antiamericanismo.

Lula já foi mais hábil em usar a novilíngua da diplomacia petista. Ultimamente, está mais tosco e descuidado. Sua fala na quinta-feira, 6, sobre a invasão da Ucrânia por Putin, mostra isso. “Putin não pode ficar com o terreno da Ucrânia“, disse ele. “Talvez se discuta a Crimeia. Mas o que ele invadiu de novo, tem que se repensar. O Zelensky não pode querer tudo. A Otan não vai poder se estabelecer na fronteira com a Rússia.“

Entende-se dessa mixórdia que o plano de paz de Lula é que Putin saia da guerra com a Crimeia e com uma garantia de que a Ucrânia não entrará para a Otan. Só isso. É ridículo.

Mauro Vieira está se gabando porque o Itamaraty voltou a ser um instrumento para a política externa indefensável do petismo. Não há o que comemorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário