sábado, 18 de março de 2023

"Mato por prazer"

 



A associação entre tatuagem e criminalidade costumava me parecer tão forte que eu sugeria como piada que o crime era causado por um vírus neurotrópico de ação lenta introduzido pela agulha do tatuador. Theodore Dalrymple para a revista Oeste:


Foi cerca de 25 anos atrás que notei, pela primeira vez, a ascensão das tatuagens na pirâmide social, de presidiários a celebridades e milionários (o que não é uma distância longa, segundo alguns). Até então, elas basicamente se restringiam a marinheiros, criminosos e alguns poucos membros degenerados das classes altas, como o rei George V. A relação entre a tatuagem e a criminalidade é observada há tempos, por exemplo, pelo médico, criminologista e antropólogo italiano Cesare Lombroso, que hoje é bastante ridicularizado, no fim do século 19. Claro, precisamos ter cuidado para não cometer um erro lógico elementar: se todos os criminosos são tatuados, a conclusão não é todas as pessoas tatuadas são criminosas.

No entanto, quase todos os detentos na prisão em que trabalhei eram tatuados, muitos em estilo amador, com nanquim. Por exemplo, eles tatuavam linhas pontilhadas ao redor do pescoço com uma tesoura e as palavras “Corte aqui”. Às vezes, as instruções eram seguidas. Eu me lembro de um paciente, um jovem de baixa estatura, que tinha as palavras “Sem medo” tatuadas em letras grandes na lateral do pescoço, na esperança de que, assim, ele transmitisse a impressão de perigo e ferocidade. Nos meios em que ele circulava, infelizmente, as palavras foram tratadas como desafio ou incitação, e o homem foi agredido diversas vezes por causa delas, pelo menos uma resultando em fratura craniana.


A associação entre tatuagem e criminalidade costumava me parecer tão forte que eu sugeria como piada que o crime era causado por um vírus neurotrópico de ação lenta introduzido pela agulha do tatuador, só para descobrir depois que minha piada foi levada a sério, e as pessoas estavam fazendo esforços reais para refutá-la. Admito que não era uma piada muito boa, mas, quando piadas suscitam contestação em vez de risadas, as pessoas não devem estar aproveitando muito a vida.

Sabendo que eu tinha um pequeno interesse pela ascensão da tatuagem nas classes sociais, uma revista de cultura me enviou um livro sobre o assunto, escrito por uma acadêmica. Ela afirmava que as tatuagens eram uma forma de autoexpressão, como se a autoexpressão fosse uma coisa boa, independentemente do que está sendo expressado. Pedrinho Matador, por exemplo, com certeza estava se expressando quando tatuou “Mato por prazer” no antebraço, mas não acho que isso tenha feito nada de bom por ele nem por ninguém.

Tatuagem “Mato por prazer” no braço de Pedrinho Matador  Globo

A pesquisadora que escreveu o livro era, ela mesma, tatuada e afirmava fazer parte de uma comunidade de pessoas tatuadas. Achei isso curioso. Ao se tatuar, o que era algo um tanto incomum para acadêmicos fazerem na época, ela estava se rebelando e se conformando ao mesmo tempo, ainda que estivesse se conformando com uma “comunidade” de rebeldes. A rebelião conformista é típica da mente adolescente, então me ocorreu que adolescentes mais velhos estavam ensinando adolescentes mais novos nas nossas universidades. Aliás, por que não? Afinal, adentramos a primeira era de adolescentes geriátricos: isto é, pessoas que cresceram nos anos 1960 e amaram tanto a própria adolescência que decidiram nunca mais deixá-la para trás.

Minha primeira teoria sobre o porquê da escalada das tatuagens na pirâmide social (o que acabou acontecendo com grande rapidez; diz-se que cerca de um terço dos homens adultos nos Estados Unidos e na Inglaterra estão tatuados) era que se tratava de uma tentativa da burguesia que sentia culpa de seu status ou boa sorte de se identificar com grupos marginalizados, como os detentos. “Identificar-se” simbolicamente com os menos afortunados deste mundo é uma forma indolor de ser bom, a maioria das outras maneiras de ser bom requer algum tipo de sacrifício.

Essa teoria me pareceu plausível na época. Afinal, é dito que a origem de usar bonés de beisebol virados para trás (não que eu goste de usá-los virados para a frente; alguém consegue parecer inteligente usando um boné de beisebol ou, por falar nisso, mascando chiclete?), o que até mesmo jovens privilegiados nos Estados Unidos e em outras partes fazem agora, surgiu da necessidade de os visitantes das prisões virarem o boné para poder chegar mais perto do vidro que os separava do detento visitado.


No entanto, se algum dia foi verdadeira, essa tese não é mais — ela não tem mais como dar conta de uma epidemia tão disseminada de automutilação. Não tenho uma teoria totalmente satisfatória para explicar o fenômeno, mas desconfio que, em uma sociedade de massa, a necessidade de se expressar e se conformar ao mesmo tempo — o que é individualismo sem individualidade — possa ser uma explicação parcial.

Mas vamos voltar brevemente à história de Pedrinho Matador. Eu nunca tinha ouvido falar dele até alguns dias atrás e, quando li a história, mal pude acreditar. Como um homem pode ter conseguido — e sido capaz de — matar 47 pessoas enquanto estava preso, sem contar as cerca de 50 que ele matou do lado de fora? Se o Brasil tivesse adotado a pena de morte e o executado no início de sua carreira, não haveria gritos de ultraje no restante do mundo, pelo menos nos Estados Unidos e na Europa Ocidental (o Japão e a Índia de alguma forma se safaram da pena de morte): mas não há um vislumbre de indignação diante da ideia de um homem ter podido matar 47 outros homens enquanto estava na prisão, o que sugere condições nas quais alguém desvia o olhar, porque elas devem ser muito terríveis.

Pedrinho Matador, na Penitenciária 2, de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, em 2004 

Mas que atire a primeira pedra aquele que não tiver pecados. Na Inglaterra, fazemos as coisas de uma forma mais refinada. O dr. Shipman matou aproximadamente 200 pacientes — por acaso, mais ou menos no decorrer dos 25 anos em que a tatuagem entrou na moda — por meio de uma injeção de morfina. Suas vítimas eram principalmente mulheres mais velhas, o que, presumo eu, não seja o caso dos alvos do Pedrinho Matador.

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