sexta-feira, 31 de março de 2023

Estamos todos superados

 



Lula quer nos convencer de que projetos, slogans e marcas do passado petista seguem vivos e atuais, enquanto todas as teorias e modelos econômicos fracassaram. Jerônimo Teixeira para a Crusoé:


Os livros de economia estão superados, diz Lula. É preciso mudar nossa cabeça. Descartar palavras como “gasto” e “despesa“, tão negativas: agora é tudo investimento, dinheiro para o pobre se converter em cidadão de classe média. Essa é a razão de ser do novo governo, de acordo com o velho presidente.

Estava quase vendo a hora de Lula dizer, como dizia sua indicada para a presidência do banco do Brics, que gasto público é vida. Mas não, ele jamais diria isso. Me corrijo: estava vendo a hora de Lula dizer que investimento público é vida.

Mas o tema deste texto não é econômico. Meu interesse é esta única frase: “os livros de economia estão superados”.

Talvez a intenção de Lula fosse dizer que a economia liberal ortodoxa está superada, o que já seria bastante ousado, para não dizer temerário. Mas ele optou por uma afirmação megalômana, que faz tábula rasa de tudo o que veio desde de Adam Smith. Lula incluiu na prateleira das antigualhas até a obra de economistas que em tese estariam no seu campo político. O preço da desigualdade, do Nobel Joseph Stiglitz, que recentemente participou de um sarau econômico promovido por Aloízio Mercadante no BNDES, está mais ultrapassado que o Blackberry. O Capital do Século XXI, de Thomas Piketty, um raro best-seller da área econômica, tornou-se tão obsoleto quanto a internet discada. Lula, o insuperável, suplantou a todos.

E aqueles 44% de brasileiros que temem o comunismo, segundo a pesquisa do Ipec, podem se tranquilizar: a teoria da mais-valia de Marx está mais velha que videocassete betamax.

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Andava à toa em Londres, em um um momento livre durante uma viagem a trabalho, quando decidi visitar o Victoria & Albert Museum, esse belo repositório de objetos superados. Naquele ano de 2014, estava em cartaz a exposição temporária Desobedient objetcs, reunindo cartazes, roupas, veículos e tralhas variadas relacionados a protestos históricos, da luta contra o Apartheid à Primavera Árabe. O espírito do Occupy Wall Street vagava pelo museu da rainha que deu nome à era de ouro do imperialismo britânico. No alto, atravessando toda a sala de exposição, uma faixa trazia uma frase: CAPITALISM IS CRISIS.

Correto: capitalismo é crise. Tudo o que é sólido desmancha no ar, já dizia o Manifesto Comunista, em sua ode à inquietude burguesa que produziu “a revolução contínua da produção, o abalo ininterrupto de todo o sistema social, a insegurança e a movimentação eternas”. As revoluções proletárias não chegaram lá aonde o manifesto previra, e assim a mudança e a insegurança se tornaram nosso modo de vida. É o velho normal.

O que me traz de volta à ideia de superação, que o presidente aventou de forma tão casual. Quantos de nós seremos superados nos próximos anos ou décadas?

Imodestamente, acredito que o ChatGPT ainda levará um bom tempo para conseguir emular as digressões livre-associativas do meu texto. Mas não somos ultrapassados apenas pela tecnologia. Certas atividades outrora celebradas podem perder sua relevância.

A maior parte da minha vida produtiva foi dedicada ao jornalismo cultural, e em particular aos livros. Perdi a conta das resenhas que escrevi. Sigo me exercitando nesse gênero. Mas às vezes me surpreendo que ainda haja público para isso.

É bem provável que eu já esteja superado. Só não contem isso para meus editores.

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Estou assistindo só agora à The New Pope, série de 2020 criada e dirigida por Paolo Sorrentino. O americano John Malkovich faz João Paulo III, um papa inglês, dando sequência à história de The Young Pope, série na qual o inglês Jude Law interpretava Pio XIII, um papa americano.

No quinto episódio, Sharon Stone, no papel dela mesma, é recebida em audiência pelo papa, que é seu fã. A atriz pede, entre outras coisas, que a Igreja Católica reconheça o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. João Paulo III diz que a Bíblia não permite isso. Sharon Stone sugere que a Bíblia seja atualizada. Não, diz o papa, a Bíblia não é um iPhone para que se possa fazer nela um update.

Religião. Arte. Precisamos dessas coisas que nos dão a ilusão da permanência. Mas também elas entram em crise.

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Os livros de economia estão superados, diz Lula.

A declaração foi feita no relançamento do Mais Médicos, parte dessa turnê nostálgica que é o terceiro governo de Lula. Projetos, slogans e marcas do passado petista seguem vivos e atuais, enquanto todas as teorias e modelos econômicos caducaram.

Há um sub-reptício apelo populista na frase: homem do povo, o presidente sabe do que o brasileiro pobre precisa, entende seus anseios, e assim pode dispensar o conhecimento dos economistas, gente elitista e esnobe.

O desprezo pelo conhecimento, a retórica que se passa por espontânea mas é sobretudo irresponsável, o populismo: diziam que havíamos superado essas coisas.

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