Maurício Souza foi condenado por um tribunal obscuro e covarde — e, se silenciar, um dia a vítima vai ser você
Guilherme Fiuza
Em entrevista ao jornalista Rica Perrone, o jogador de vôlei Maurício Souza contou que sua mulher quis a separação em meio ao linchamento que o atleta sofreu. Hoje está na moda chamar isso de “cancelamento” — uma licença poética emprestada da terminologia dos matadores. E ainda dizem que se trata de uma onda virtuosa, afirmativa, inclusiva, etc. Nunca se viu tanto carinho com a violência.
Maurício não joga mais vôlei. Foi estigmatizado de maneira terminal por uma opinião que emitiu. Não é que ele tenha sido alvo de contestações ou objeto de repúdio. Esse integrante da seleção brasileira foi aniquilado. Riscado do mapa. Você está diante de um tribunal obscuro e covarde — e, se silenciar, um dia a vítima vai ser você. E ninguém vai te socorrer.
Foi o que aconteceu com Maurício, como ele detalha nessa conversa franca publicada no YouTube pelo Canal do Rica Perrone. Preste atenção a esse detalhe: o jogador conta que ninguém — ninguém mesmo — do seu círculo profissional deu um pio publicamente contra o seu linchamento. “Só em off”, conta Maurício, mesmo assim expressando gratidão aos que se solidarizaram em particular com ele. É um escândalo.
Como todos sabem, Maurício Souza foi acusado de homofobia — por conta de uma postagem criticando a bissexualidade do personagem do novo Superman. No entanto, como conta na entrevista, sempre atuou ao lado de atletas homossexuais e jamais teve problema com qualquer um deles. Ao contrário, relata que o clima sempre foi de companheirismo, irreverência e respeito, sem que a questão sexual trouxesse qualquer aresta às suas relações no vôlei e na vida. Como uma pessoa assim pode ser enforcada moralmente em praça pública, sob o absoluto silêncio dos que o conhecem e sabem da hedionda injustiça?
O técnico da seleção, um ídolo do vôlei nacional, não hesitou em jogar Maurício aos leões
O que se viu foi um companheiro de time, que se tornou ativista gay, disparar publicamente contra Maurício — com a tese de que um Superman bissexual seria uma mensagem de ampliação da representação heroica, incluindo a possibilidade de identificação dos que não são héteros. Ok, é uma possibilidade de abordagem. Mas por que não pode existir a abordagem de Maurício? Ele criticava a troca de sexo de um personagem conhecido como super-homem.
Beijo gay entre o novo Superman, filho de Clark Kent, e outro personagem | Foto: Divulgação
Considerando-se que a fronteira entre inclusão e demagogia nem sempre é clara, no mínimo deveria ser garantido o respeito a abordagens distintas, sem essa caçada reacionária a tudo que divirja do panfleto-padrão. Quem quiser detestar, que deteste. Quem quiser processar, que processe.
Mas nada disso basta. É preciso aniquilar o herege. O técnico da seleção, um ídolo do vôlei nacional, não hesitou em jogar Maurício aos leões. O mesmo fizeram as empresas patrocinadoras do seu clube. O linchamento foi montado e nenhum covarde deixou de aparecer para dar o seu chute na vítima. Sob esse cerco violento, a mulher de Maurício lhe disse que ia deixá-lo. Não estava suportando a pressão. Ele se manteve firme e conseguiu acalmá-la, assegurando que a loucura iria passar, conforme relata na entrevista.
Conseguiu superar a crise em casa e hoje é bem recebido em qualquer lugar do país — o atleta de seleção que não encontra um único time para exercer o seu talento na atividade da qual vive. Felizmente os canalhas não conseguirão matá-lo de fome, graças a tudo que uma carreira pródiga lhe deu.
E também não conseguiram deixá-lo sozinho, graças a manifestações isoladas, como a da também gloriosa ex-jogadora da seleção Ana Paula Henkel, atualmente colunista da Revista Oeste, e do jornalista esportivo independente Rica Perrone — que agora no seu Cara a Tapa, programa de grande audiência, dá a Maurício Souza a oportunidade de mostrar as circunstâncias chocantes do seu aniquilamento. Um tapa na cara da sociedade covarde.
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