Como todo cidadão brasileiràs boas relações diplomáticas do meu país, com as demais nações. Acredito nos princípios que regem a diplomacia internacional, como o respeito à soberania de cada nação, a não interferência em assuntos internos de cada país, e a reciprocidade nas relações bilaterais, apenas para citar alguns. E é claro que o Sr., sendo um diplomata, conhece estes princípios, e os defende, pelo menos no que diz respeito ao seu próprio país.
Ninguém em sã consciência ignora os benefícios colhidos pelo Brasil, no relacionamento com a China. Não precisamos que o Sr. nos lembre que o seu país é o nosso maior parceiro comercial, responsável por boa parte do nosso superávit no comércio exterior. Também sabemos que a China tem sido um grande investidor em nosso país, adquirindo participação em empresas brasileiras de vários setores, e até mesmo comprando empresas inteiras. Não vejo isso como um favor que a China nos fez, ao contrário, são apenas negócios, feitos com o objetivo de se obter lucros. Foram transações que geraram benefícios para ambos os países. É importante sempre nos lembrarmos que a China também depende do Brasil, e depende para algo vital, que é garantir alimentos à sua imensa população. Também não creio que seria benéfico à China perder o nosso mercado consumidor.
Me atrevo a lembrá-lo que as relações bilaterais não se limitam às relações econômicas. Elas também englobam as relações políticas, militares, culturais e humanas. Por isso, também lembro o Sr. que, sendo tão amplas as relações entre dois países, é natural que as relações entre duas nações do porte do Brasil e da China, vez ou outra, esbarrem em divergências, causadas pelo fato de sermos povos distintos, com objetivos distintos.
Estas divergências, porém, não significam que não haja interesse nas relações bilaterais. Apenas mostram que nossos povos tem posicionamentos divergentes sobre determinados assuntos. Uma boa diplomacia sabe como lidar com tais divergências, sem prejuízo da amizade entre as nações.
Também gostaria de lembrá-lo, que o fato da China ser hoje o nosso maior parceiro comercial, não dá ao Sr. ou ao seu governo, o direito de interferir em nossos assuntos internos. Nós somos um país soberano, e discutir o sistema de telefonia 5G é um direito e uma necessidade da nossa sociedade. A reação exagerada e intempestiva desta embaixada, e sendo assim, de seu governo, em relação às falas de um deputado federal brasileiro, que ocupa o seu cargo com a autoridade que lhe foi conferida pelo poder do voto direto dos cidadãos brasileiros, e que se manifestou amparado pela nossa Constituição, é um ato de desrespeito à nossa soberania, ao nosso Poder Legislativo e à democracia vigente em nosso país. É um desrespeito ao povo brasileiro, representado na pessoa do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que neste caso, não deve ser visto como um dos filhos do presidente brasileiro, mas deve ser visto como um parlamentar, e representante legítimo dos brasileiros, que foi eleito para defender os nossos interesses, e não os de vocês! Ele está cumprindo com o dever que recebeu através do nosso voto. Atacá-lo, é atacar aos seus eleitores, e aos cidadãos brasileiros, como eu!
A meu ver, esta reação de seu governo, diante de um debate de ideias envolvendo um parlamentar brasileiro, e uma empresa chinesa de tecnologia, só comprova que o seu governo não distingue o que é Estado, o que é partido, e o que é iniciativa privada. Escancara a todos que na China, Estado e empresas estão sob um único comando, que é o do Partido Comunista Chinês. Porém, a China precisa entender que cada país tem o seu próprio sistema de governo, e precisa entender também que muitas das práticas que são consideradas aceitáveis na China, não são aceitáveis em outros países. Tal entendimento é fundamental para se manter uma relação saudável com outras nações.
Além disso, em qualquer economia de mercado, as empresas defendem a si mesmas e aos seus produtos, e ganha a confiança dos clientes em potencial, as empresas que mostram que o seu produto ou serviço, é o melhor! Numa economia de mercado, o governo não precisa fazer ameaças à soberania de outros países, para ganhar um contrato. O que prova que, mesmo fazendo parte da Organização Mundial de Comércio, na prática a China não funciona como uma economia de mercado!
O governo chinês não aprecia quando estrangeiros emitem suas opiniões sobre questões internas da China, como a delicada relação chinesa com o Tibete, a independência de Taiwan, o fim da democracia em Hong Kong, a doutrinação forçada da minoria Uigure, a perseguição e a destruição de templos cristãos, e a violação de direitos humanos básicos, só para citar alguns exemplos. Se a reciprocidade é um dos princípios que regem as relações diplomáticas entre as nações, então teríamos o direito de emitir uma opinião formal a respeito destas questões, correto? Afinal, se nossos debates internos interessam a vocês, a ponto de nos ameaçarem, pela mesma lógica, as práticas internas do governo chinês também nos dizem respeito!
A despeito de qualquer acusação de suposta espionagem praticada pela Huawei, temos o direito de avaliar empresas e governos com os quais mantemos relações bilaterais. A China não tem do que reclamar, pois o meu país, até aqui, tem feito vista grossa ao fato de que muitos dos produtos manufaturados que importamos de seu país, são fabricados por trabalhadores que sequer possuem direitos trabalhistas, e muitos cumprem jornadas exaustivas, numa relação trabalhista similar à escravidão. Temos ignorado as práticas comerciais desleais. Temos ignorado as violações aos direitos humanos básicos, e temos ignorado que o governo chinês é uma ditadura, que trata o próprio povo com mão de ferro. Enquanto o seu governo reclama de algo que não lhe diz respeito, nós fingimos que nada de errado acontece em seu país.
O Sr. e seu governo foram rápidos em apontar os dados da balança comercial entre nossos países, como motivo para que aceitássemos essa intromissão absurda de seu governo em nossos assuntos internos. Além disso, Sr. embaixador, o saldo positivo no comércio com seu país jamais pagaria pelas mais de 160 mil vidas de brasileiros que foram ceifadas devido a uma pandemia causada pela irresponsabilidade e incompetência de seu governo. Nenhum dos seus argumentos trará estas vidas de volta, nem trará os empregos perdidos ou as empresas falidas. A China teria que desembolsar muito mais recursos para compensar a queda do nosso produto interno bruto. A China faz negócios, lucrando com a pandemia de um vírus que ajudou a disseminar, colocando os lucros acima da vida humana, e ainda se acha no direito de ameaçar uma nação soberana, que discute assuntos que não dizem respeito ao governo chinês? Assim como a China tem o direito de cuidar dos seus interesses, é necessário que reconheça que temos o mesmo direito de cuidar dos nossos interesses. E qualquer diplomata sério e bem instruído sabe que, o fato de haver interesses diferentes em algumas áreas, não coloca em risco relações bilaterais saudáveis.
Se a China não quer reconhecer a nossa soberania, e não respeita o nosso direito de escolher as empresas que nos prestarão serviços, então vejo isto como um sinal de que as nossas relações bilaterais não são saudáveis. Se as relações entre os nossos países são construídas sob ameaças por parte de seu governo, é porque não existe respeito ao nosso povo, por parte da China. Quando não existe respeito, ou quando estas relações diplomáticas visam o benefício de apenas uma das partes, é chegada a hora de repensá-las!
Transformar a nossa escolha da empresa que nos proverá a infraestrutura de telefonia 5G numa questão de Estado, mostra o verdadeiro valor que a China dá às relações diplomáticas com o Brasil. E mostra também o quanto nos equivocamos em ignorar os diversos sinais de desgaste que a nossa relação bilateral já vinha mostrando. Mais do que o aspecto financeiro e econômico, há muitas outras questões que precisam ser consideradas. Nossa soberania e nossa dignidade não estão à venda. E por mais que alguns brasileiros tenham se permitido seduzir pela tentação do dinheiro fácil, nem todos se deixam seduzir por esta tentação. Além disso, o coronavírus teve uma única virtude, que foi a de escancarar para aqueles que insistiam em não acreditar, que a China é manipuladora e não gosta de ser contrariada. A China gosta de apontar as falhas de outros países, mas se irrita quando têm apontados os seus próprios problemas!
Sr. embaixador, o Sr. e o seu governo tem todo o direito de se manifestarem. Mas não pensem que ficaremos calados! Mesmo que nosso governo não emita nenhuma nota oficial de repúdio às declarações desta embaixada, não se iluda acreditando que tal atitude reflete o pensamento do povo brasileiro! Nós, brasileiros, repudiamos veementemente esta intromissão e esta falta de respeito para conosco! A atitude de seu governo é inaceitável. E se de fato a China valoriza as relações bilaterais e a amizade com o Brasil, deveria fazer um pedido formal de desculpas ao povo brasileiro. É o mínimo que podemos esperar depois de tamanha ofensa, de tamanho desrespeito, e depois das ameaças que recebemos.
Somos um país soberano, regido por um regime democrático e por uma Constituição que me garante, como cidadão, o direito de expressar estas minhas opiniões. Sei que deve ser difícil aceitar que um cidadão estrangeiro se dirija ao Sr. desta maneira, mas entenda, isto é democracia, e aqui não é a China, sou brasileiro e estou no Brasil!
Brasil acima de tudo e Deus acima de todos!

Sander Souza (ConexãoJapão), para Vida Destra, 27/11/2020.
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