
Em tempos de fake news (inclusive por parte da imprensa), talvez seja de interesse ver de que maneira o jornalismo se relaciona com a verdade. Tratei do tema em artigo publicado anos atrás e reproduzo aqui a introdução do texto:
1. Não há conhecimento sem verdade, isto é, todo conhecimento é verdadeiro ou não é conhecimento. Assim, não podemos sustentar que temos conhecimento do falso (não há “fatos falsos”), embora possamos saber que uma afirmação é falsa ou mentirosa. Por exemplo, se alguém se depara com a afirmação de que “Luiz das Neves é o atual governador de Santa Catarina” e acredita nisto, não poderá afirmar que conhece. Isto significa que verdadeiras ou falsas são as nossas afirmações, sentenças, crenças, proposições etc. – não a realidade, o mundo objetivo -, e que afirmações ou proposições falsas não geram conhecimento.
Aqui já se percebe que a verdade não é questão pacífica. Há séculos a filosofia se defronta com várias teorias, algumas delas não necessariamente próximas, mas tampouco excludentes ou antagônicas. O fato é que não existe uma teoria geral e completa da verdade. Sendo um dos mais controversos conceitos filosóficos, a verdade ora tem sido considerada absoluta, ora relativa, ora apenas um ideal a ser alcançado, ora um conceito simplesmente dispensável - quando não decretada a sua inexistência (“não há verdade”). Trata-se de uma questão relevante não só para a filosofia, mas que se estende aos domínios da teoria do conhecimento, da lógica, da lingüística, das ciências e também do jornalismo.
No jornalismo, especificamente, observa-se a tendência de reduzir a verdade a imperativo ético, sem o esforço, por parte dos estudiosos, de enfrentar a questão epistemológica da verdade, relacionando-a com as teorias compartilhadas pela filosofia e pelas ciências. Transformada em princípio ético - tal como a referem os códigos deontológicos -, a verdade jornalística parece tornar-se, no fundo, apenas um ideal de honestidade ou credibilidade do repórter e de suas fontes, ou dos próprios media. Ora, se o jornalismo não trata apenas de opiniões ou juízos de valor, mas procura relatar imparcialmente fatos ou acontecimentos, não poderá escapar a questionamentos epistemológicos formulados também na esfera filosófico-científica.
Para elucidar tais questões, o primeiro passo é analisar as principais teorias da verdade e identificar qual ou quais delas melhor se aplicam à atividade jornalística em geral. Identificada a teoria mais apropriada, será então o momento de apontar se, quanto ao problema da verdade, apresenta o jornalismo algumas características específicas em relação às teorias correntes em outras áreas. E, caso a verdade jornalística seja algo absolutamente diferente, que se mostrem as cartas.
Postado por Orlando Tambosi
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