quarta-feira, 11 de março de 2020

Idioleto antiproverbial de Zé Ferrim



 Ferroviário Atlético Clube - Ceará.

Geraldo Duarte*




Anos 1970. Zé Ferrim, merceeiro na Rua Japão, bairro Montese.


Torcedor fanático do Ferroviário Atlético Clube. Eleitor do saudoso vereador Narcílio de Andrade (1941 - 2018), com foto em abraço quando o político fez-se Rei Momo na Capital, emoldurada e ladeando a do seu Tubarão da Barra.


Mostrava-se letrado e usava particularidades linguísticas de um único indivíduo – o idioleto.


Professores do Colégio Presidente Castelo Branco, em cervejadas, o tratavam como “Idioletista Antiproverbial”. Citavam Monteiro Lobato exímio utilizador dessa forma literária e Zé ufanava-se ante as fanfarrices - meias verdades - dos docentes.


Ojerizava provérbios, tal e qual Seu Lunga odiava perguntas julgadas descabidas. Ao ouvir um, acrescia o que chamava remendo.


Eis alguns anotados por antigos fregueses, chegados ao hoje, com adjunções críticas ou contrárias.


“Se cair, do chão não passa.” - “E se o chão em que você estiver afundar?”;


“Não se catuca onça com vara curta.” – “Não se catuca é com vara nenhuma!”;


“Amor com amor se paga”. – “Fale isso a um corno!”;


“Quem espera sempre alcança.” – “Pois fique esperando pra ver!”;


“Para o bom mestre não há má ferramenta.” – “Então, dê a ele um serrote travado e espere o resultado!”;


“O prometido é devido.” – “Diga isso a caloteiro!”;


“Quem avisa amigo é.” – “Mas de quem? E se for do Amigo da Onça da revista O Cruzeiro?”;


“Quem não tem cão, caça com gato.” – “E quem não tem gato, nem bicho nenhum, não caça?”;


“Os últimos serão os primeiros.” – “Vá dizer isso na fila do ônibus!”;


“Querer é poder!” – “Vivo querendo e nunca pude. Papo de doido!”;


“Errar é humano!” – “Explica ao delegado de polícia!”;


Por final, há dois merecedores de destaque:

“A esperança é a última que morre!” – “Mas morre, seu besta!” e

“O Seguro morreu de velho!” – “Pois saiba que o Desconfiado foi ao enterro dele e anda por aí achando graça!”.



                                    Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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