sexta-feira, 27 de março de 2020

A quarentena do farsante


Se o ex-presidiário não fosse desprovido do sentimento da vergonha, não seria tão aflitiva a escassez de leitos de UTIs e equipamentos hospitalares num país infestado de estádios sem serventia. Augusto Nunes, via Oeste:



Quando Lula empunha o microfone, fenômenos assombrosos se oferecem aos olhos de quem trata o idioma com alguma gentileza. O plural se asila na embaixada portuguesa, vírgulas e pontos se refugiam no dicionário mais próximo, sujeito e predicado trocam socos e pontapés, a concordância verbal sai em desabalada carreira — nada no mundo da gramática escapa a pânico desencadeado pela iminência de mais uma selvagem sessão de tortura. Muito diferentes, mas igualmente impressionantes, são os espantos testemunhados por discípulos próximos do mestre. Foi assim com Marilena Chauí. Ao sair de uma conversa a dois no Palácio do Planalto, ela contou o que descobrira: “Quando Lula fala, o mundo se ilumina!”.

Tanta luminosidade afetava, por exemplo, os olhos e ouvidos do intelectual Antonio Cândido. Professor da USP, ensaísta e escritor, era exigente com alunos que maltratavam o vernáculo, implacável com estreantes sem brilho e inclemente mesmo com amigos consagrados. Mas não conseguia ver nem ouvir os socos e pancadas desferidos por Lula na última e indefesa Flor do Lácio. “Ele tem um instinto e uma intuição que dispensam o conhecimento da norma culta”, derramou-se numa entrevista o catedrático capaz de reprovar o melhor da classe pelo sumiço de um circunflexo, ou castigar com bordoadas quem se atrevesse a murmurar um “menas”.

Postado por Orlando Tambosi

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