terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O papa peronista não é unanimidade entre os argentinos


Muito, muito longe disso: os gestos de simpatia com o novo presidente, Alberto Fernández, que levou o pedido da audiência a Lula, causam ojeriza, escreve Vilma Gryzinski:



Messi, a rainha da Holanda e o papa Francisco? Poderiam os egos argentinos viver mais inflados?

Ao contrário da unanimidade com que foi recebido – fora entre a extrema esquerda, vejam que ironia – quando foi eleito, Jorge Bergoglio hoje desceu de patamar.

Ao sujar a batina branca na lama da política, ele virou mais um das duas bandas que dividem inapelavelmente os argentinos: peronistas e antiperonistas.

Ninguém tem qualquer dúvida sobre o lado do papa. Ainda mais depois que, tendo passado quatro anos fazendo cara feia para Mauricio Macri, desmanchou-se em gentilezas com seu sucessor, Alberto Fernández.

A ponto de Fernández reclamar, depois de sua primeira visita como presidente ao Vaticano, que a nota oficial sobre a audiência com Francisco mencionava indevidamente que o tema aborto havia sido discutido.

“Vamos corrigir”, respondeu imediatamente o papa.

Foi nessa visita que Fernández pediu que Francisco – ou Pancho, como ironizam os menos entusiasmados – recebesse o ex-presidente Lula.

“Com prazer”, respondeu, segundo os assessores de Alberto que espalham com imensa alegria todos os detalhes das conversas, por e-mail ou pessoais.

Na cabeça do papa, como de tantos bispos brasileiros, o condenado é uma vítima do capitalismo malvado porque queria ajudar os pobres.

Aliás, na cabeça dele só existem capitalistas malvados. Exceto talvez os que entraram em conúbio íntimo com os populistas de esquerda para sugar recursos surrupiados diretamente do bolso dos pobres etc etc etc.

Nem adianta argumentar. É o que é.

Estamos tratando, aqui, da repulsa que o alinhamento político de Francisco provoca na própria Argentina, sem nenhuma relação com os graves erros doutrinários que os diversos setores tradicionalistas da Igreja enxergam na conduta papal.

Uma pequena amostra, tirada de comentários no jornal Clarín:

“O pior que poderia ter acontecido com este país foi ter papa de quarta, que nojo.”

“É o papa negro, o anticristo anunciado, a favor dos ladrões corruptos e aborteiros.”

“Pancho é fachoperonista de nascença e sucessor de Perón na Guarda de Ferro.”

“Entre peronchos e corruptos, se entendem.”

“A Igreja hoje, com o peronista Bergoglio, é a expressão máxima da decadência católica.”

“É possível esperar qualquer coisa desse velho comunista.”

E por aí vai.

“Por que tantos argentinos detestam Messi e o papa?”, perguntou numa manchete o jornal espanhol El Mundo, no ano passado.

Assuntos de futebol são infinitamente mais complicados do que os religiosos, mas a resposta, no primeiro caso, em geral, está ligada ao brilho excepcional do jogador no Barcelona e ao ofuscamento que acontece em Copas do Mundo.

Quanto ao papa, arriscou o jornalista e escritor Nicolás Lucca: “Em menos de um ano, Francisco completou o álbum de líderes populistas sul-americanos entre os quais não existe um único que tenha uma situação judicial com saldo a favor”.

“As fotos sorridentes com todos, o silêncio diante do massacre nada silencioso da dignidade humana na Venezuela, o conservadorismo patético, quando não o acobertamento, face aos abusos sexuais cometidos por sacerdotes, a total falta de vontade de mudar uma vírgula no sistema bancário do Vaticano e um hábito quase viciado de se intrometer constantemente nos assuntos internos da Argentina.”

Mais sofisticado e distante, Loris Zanatta, professor da Universidade de Bolonha, analisa o “progressista” Bergoglio como “herdeiro direto de uma tradição antigamente definida como reacionária: do antimodernismo hispânico, nostálgico do organicismo típico da cristandade medieval”.

Mesmo sendo esquivo e ambivalente, falando de acordo com a plateia – ah, as técnicas jesuítas -, ele acaba revelando uma visão do mundo que é “filha fiel de uma tradição antiga e robusta, a nacional popular que tanto permeia o catolicismo argentino e latino-americano”.

Pronto, está resolvido: o papa não é comunista, é nacional popular.

Que Nossa Senhora de Luján nos proteja a todos. Inclusive a Pancho. Confundir vício com virtude é um dos truques mais antigos do pai das mentiras. Pior que gol de mão.

Postado por Orlando Tambos

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