
Se Lacerda tivesse aceitado, jamais seria cassado pela ditadura
Helio Fernandes
Era um sábado. Tínhamos acabado de almoçar, Rosinha saiu, eu estava sozinho. Dezembro de verão tremendo, de bermuda, sentado no chão do enorme salão, lia a biografia de Charles Chaplin. Maravilha.
O telefone tocou, (estávamos distante pelo menos 20 anos do celular), um empregado veio com o telefone, “o governador Lacerda quer falar com o senhor “. Já deixara o governo, ficou o hábito.
Atendi, perguntou se eu ia sair, disse não, respondeu, “estou indo para aí, preciso conversar”. Foi direto,
52 anos depois, a emoção da lembrança e da revelação. “Helio, estou vindo do Palácio, o Castelo me convidou para embaixador na ONU”. Interrompi, não deixei que dissesse mais nada, falei:” E você aceitou na hora”. Em cima do laço, respondeu, “recusei, quero ser presidente”. Fiz então uma análise, resumida:” Você fala correta e correntemente 4 ou 5 idiomas, é um dos maiores tribunos que conheço, vai dominar a ONU. E os generais estão mandando um recado, não querem romper com você”.
Conhecia muito minha casa onde moro desde 1962, elogiou meus quadros, citando um-a-um, parou em frente a um retrato de Rosinha, pintado pelo famoso Bianco, meu grande amigo. Disse simplesmente: “Rosinha é muito bonita”
Conversamos mais umas 3 ou 4 horas, antes de sair, pediu: “Helio, usa a tua famosa memória, reconstitui a conversa, não diz que foi comigo, nem fala no convite para ser embaixador na ONU”. Disse a ele, você sabe que os vespertinos não circulam aos domingos, e os matutinos, às segundas, vou tentar para segunda.
Deu facilmente a página 3 inteira. Ele tinha assinatura, recebia o jornal assim que começava a circular;
Recebeu, leu, telefonou, falou: “Maravilha. Agora quero pedir o contrário. “Na tua memória deve ter sobrado muita coisa, diz que a conversa foi comigo, e pode revelar que fui convidado para embaixador na ONU”.
###
P.S. – No dia seguinte outra página 3 inteira, novo telefonema: “Meus telefones não param”. Satisfeitíssimo, só que 1 ano depois foi cassado. O que não teria acontecido se tivesse aceitado ser embaixador. E o país seria outro. (H.F.)
(artigo enviado por José Carlos Werneck, primo de Carlos Lacerda)
Tribuna da Internet
Nenhum comentário:
Postar um comentário