sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A vertigem da democracia

Fábio Gonçalves, repórter do Brasil Sem Medo, mostra o outro lado do pretenso "docudrama" de Petra Costa:


Take 1: A valsa das elites





Quando a Dilma ganhou a eleição de 2014, eu estava num baile de dança de salão. Enquanto eu rodopiava a pista embalado por sambas e boleros, entrevia angustiado pela TV aquela apuração apertada, a petista de pouco em pouco superando o tucano, a aproximação de uma vitória inesperada da inábil candidata, uma candidata impopular, vaiada pelo Mineirão lotado na Copa do Mundo, e que àquela altura, no meio daquele pandemônio social, já se tornara motivo de troça e matriz inesgotável de memes.

Ali, eu, pobre da Silva, no que me apercebia da iminente vitória da petista, ficava temeroso pelo futuro do país.

Havia pouco tempo eu tomara alguma ciência do nosso cenário político-cultural. Sou um dos tantos jovens da minha geração que se interessou por política a partir das Jornadas Junho de 2013. Depois que qual um gado amestrado eu fui gritar contra os 20 centavos na Faria Lima, o espírito da curiosidade me possuiu e, para compreender melhor as forças que estavam em disputa, como um esganado passei meses a fio lendo livros, fuçando na internet, travando longas conversas com professores e amigos. Queria saber quem eram os militantes de bandeira vermelha, quem eram os incipientes liberais e conservadores de verde e amarelo, quem, enfim, estava certo no meio daquele vuco-vuco, no quebra-quebra.

Com efeito, no dia das eleições, a primeira em que votei com consciência, eu já sabia do Foro de São Paulo, do Mensalão, do caso Celso Daniel, da morte estranha de Eduardo Campos. Sabia, também, em linhas gerais, o que era o comunismo, quem era Antonio Gramsci, o que queriam os revolucionários do PT e companhia.

Naquela noite, portanto, depois do anúncio fatídico, o baile terminou para mim com um tom melancólico de tango argentino. Voltei para casa, numa favela de Diadema, pesaroso, soturno.

Ao mesmo tempo, não tão longe dali, na avenida Paulista, a militante petista Petra Costa, inebriada de alegria, girava que girava como se no palco do Bolshoi ou na Corte de Versalhes, em comemoração à conquista de Lula e da ex-guerrilheira do VAR-Palmares.

Eu na fossa; a Petra rindo, bailando.

***

Fiz esse prólogo para falar sobre vertigem. A vertigem é uma espécie de tonteira, um siricutico que nos embaça a vista, que nos perturba a visão. Quem quer que sofra de vertigem, de uma hora para outra pode topar com a realidade distorcida, embaralhada, como quem tivesse sido lançado num quadro do Munch.

Isso do ponto de vista fisiológico, clínico. Mas, pode-se dizer que existe também uma vertigem intelectual.

As ideologias, no sentido que Robert Musil dava ao termo, são como que segundas realidades, mundos paralelos em que o doutrinado passa a viver uma vez que aceita as premissas distorcidas do ideólogo — derivando daí suas decisões, preferências, seus julgamentos de ordem moral, suas escolhas políticas.

Um exemplo prático:

Hitler, em 1938, estava ameaçando matar toda a raça de judeus e invadir com seus panzers metade da Europa. A realidade, com efeito, gritava:

“Alguém pare esse maluco antes que seja tarde demais!”.

Entretanto, a ideologia liberal-burguesa, a que toma as constituições, códigos civis e os tratados internacionais como a culminação da inteligência humana e meios suficientes para resolver qualquer pendenga — de pensões alimentícias a guerras internacionais —, dizia, no tom ponderado de um nobre vitoriano tomando chá com o dedinho esticado:

“Levem um papel para o Sr. Hitler assinar, fazendo com que ele se comprometa a ficar só com os Sudetos. Se ele assinar, pronto, o mundo estará a salvo”.

Hitler assinou, mandou o premiê inglês, o Chamberlain, passear, e assim que o político bigodudo virou as costas e foi acenar seu papelzinho para a mídia, o facínora alemão tomou a Hungria, a Polônia, começou a guerra e matou meio mundo.

Chamberlain e os demais pacifistas estavam numa segunda realidade, estavam numa crise aguda de vertigem intelectual. E é precisamente este o diagnóstico de Petra Costa.

***

O primeiro sinal que denota a vertigem de Petra, é o fato de não perceber que ela e sua mãe engajada, tanto quanto os parentes mais ligados à Andrade Gutierrez, empreiteira do seu avô que esteve metida nas maracutaias do PT, fazem parte da elite.

Petra, durante todo o documentário, faz um esforço monstruoso para colocar a si própria e a sua genitora como as amigas dos pobres, o lado proletário da dialética histórica, enquanto os magnatas da família, a turma que, segundo ela, acabou votando no Bolsonaro, são a elite, os opressores, a classe a ser batida pela revolução.

Nada mais falso. O PT é desde a sua formação um partido das elites intelectuais, da mesma elite que a mãe e o pai da Petra advieram. Acontece que no meio do caminho essa elite intelectual precisou se coligar efetivamente com a elite econômica — que sempre fingiu combater — com vistas a consolidar seu projeto político. O encontro das heroínas feministas e sócio-conscientes da Andrade Gutierrez com os velhos engravatados que comandam a empreiteira da família é bastante significativo. Nesse processo de ascensão e queda do PT, os donos do discurso e das artes foram beijar as mãos dos donos do dinheiro para se alçarem todos juntos ao posto de Donos do Poder — para usar o termo do patrono petista Raimundo Faoro.

Lula, praticamente o único proletário do PT quando da formação da legenda, sempre foi paparicado pelas elites. Quem não se lembra do coro dos artistas anunciando o cafona Lula lá na campanha 1989, ainda na fase enragé do petista, época em que ele ainda fazia agitação na frente das fábricas e atravancava os trabalhos do parlamento? Ou dos muitos títulos Doutor Honoris Causa que o político recebeu das mais prestigiadas universidades ao redor do planeta? Ou da bajulação de líderes mundiais como Nelson Mandela ou Barack Obama, o presidente norte-americano que se dizia fã de Lula (I love this guy, disse), a quem ele considerava o político mais popular da Terra? O chefe da nação mais poderosa do mundo, num encontro com seu ídolo em 2009 — quando Lula já havia comprado todo o parlamento a troco de se perpetuar no poder —, asseverou: Esse é o cara!

O PT sempre esteve amparado pela elite intelectual, política e financeira dentro e fora do Brasil.

Ou seja, toda a narrativa de que o projeto petista de salvação dos pobres foi cooptado e depois traído pelas elites — tese central do documentário — é conversa fiada de quem está vendo e quer nos forçar também a ver as coisas como num surto de vertigem.

No dia da eleição da Dilma, enquanto eu, pé-de-chinelo, chorava minhas pitangas, a Petra e seus parentes empresários, todos abraçadinhos e de rosto colado, valseavam espezinhando na cabeça do povo brasileiro.

Take 2: As Trinta Mil Moedas do Pai dos Pobres

Quando a Petra estava a rodopiar como uma bacante no meio da Avenida Paulista, extasiada com a terceira vitória consecutiva do seu partido predileto, havia quase uma década do estouro do Mensalão.

Em 2005 eu estava muito mais interessado no Corinthians de Carlitos Tevez, campeão duvidoso do Brasileirão daquele ano, do que nos maçantes assuntos políticos. Naquela época, aliás, eu ainda nem podia votar. As rezingas da Ágora não eram da minha conta. No entanto, entre um programa esportivo e outro, ou nos intervalos de minhas partidas no Pro Evolution Soccer, me lembro de ver pelo noticiário que um bando de políticos, empresários e doleiros estavam indo para o xadrez.

O caso ficou conhecido como Mensalão em referência a uma mesada que políticos sacanas recebiam para aprovar as demandas de Lula e seus ministros. O dinheiro saía de empresas públicas como os Correios e eram, via de regra, fruto de caixa dois, grana suja conseguida por meio do superfaturamento de contratos de licitação.

O Mensalão foi revelado em 2005, ainda no primeiro governo Lula. Lula era corinthiano, falava de futebol, se dizia do povo. Eu, do alto da minha indiferença política, simpatizava com o larápio, não sabia ainda que ele era o Chefe da gangue que estava operando aquele mega esquema de fraudes cuja finalidade, mais do que enriquecer seus amigos, era comprar a democracia em suaves prestações — 30 mil por mês para cada parlamentar mancomunado.

Soube que o Lula era o Chefe da quadrilha lá em 2013 lendo o livro do jornalista Ivo Patarra — intitulado O Chefe. Esta obra descreve o passo a passo do Mensalão, fala com detalhes dos principais envolvidos — Marco Valério, Roberto Jefferson, Delúbio Soares et caterva — mostra toda a repercussão na mídia, os desdobramentos políticos, o papel do judiciário. Da leitura, depreende-se sem chances de dúvidas que Lula não só sabia, mas, em parceria com José Dirceu, o cérebro diabólico por detrás de toda a patranhada, coordenava o esquema.

No total, o PT empenhou mais de R$ 100 milhões na compra de deputados. Foi a mais evidente tentativa de golpe de Estado da Nova República.

Isso em 2005. Em 2006, Lula, bradando aos quatro ventos, como um corno confesso, que “não sabia de nada”, conquista seu segundo mandato contra um anêmico Alckmin. E conquista com pompas, com louvores. Toda a elite intelectual e artística (a turma da Petra) e a classe dos ricaços (turma, por exemplo, dos mandas-chuvas da Andrade Gutierrez), que de uma forma ou de outra prenderam o rabo com os quadrilheiros de São Bernardo do Campo, todo mundo manteve-se do lado de Lula. A tese era que o pobre metalúrgico estava sendo traído por gente da agremiação, que ele mesmo não tinha nada com o assunto, que toda a alta cúpula do PT estava engolfada no meio das sacas de dólares subtraídas do erário público, mas ele, o símbolo-mor da revolução petista, o criador do Fome Zero e da Bolsa Família, ele, não, ele estava com as mãos limpas, incólumes.

Pois Lula venceu, ouviu de Obama que ele era o cara, continuou benquisto na roda de samba dos poderosos, bebendo sua caipirinha e jogando sua pelada com o Chico, e em 2010 emplacou a Dilma.

Mas tem a bendita da vertigem. Quando a isenta Petra foi preparar o seu mui laurado documentário, bem na parte de falar do Mensalão, lhe deu uma zonzeira miserável, os dados e fatos se ofuscaram na tela do computador e, por este motivo ela só conseguiu falar do caso durante 2 ou 3 segundos, num vídeo de quase 2h, cujo tema era a política brasileira das últimas décadas.

100 milhões para cooptar o legislativo e, por conseguinte, azedar a democracia. Menção de três segundos.

Vertigem das brabas.

Take 3: A multidão ignorada



Como eu disse, em 2013 eu fui às ruas. E peguei gosto. Portanto fui também em 2014, 2015 e 2016.

Em 2014 houve uma mudança sensível em relação ao público reclamante. Em 13, quem convocava a turba às ruas ainda era a extrema-esquerda, o Pablo Capilé, o Boulos, o Movimento Passe Livre, o PSOL. Claro que, como se sabe, no decorrer do processo essa gente foi perdendo as rédeas da situação até que os protestos organizados desde cima pelos rebeldes universitários se transmutaram numa gritaria difusa de mil e uma pautas do povão que estava de saco cheio de “tudo que está aí” — inclusive dos jovenzinhos com bandeiras e balões do PSTU, PCO, UNE, CUT e MST.

Deu-se, então, que no meio daquele furor, quando achávamos que as coisas não voltariam ao normal antes da nossa Revolução Francesa, aconteceu que firmou-se um acordão de comadres entre as marionetes do PT que iniciaram a sublevação e a Dilma, a presidente(a) que no meio daquela bandalheira, desde uma janela escondida no Planalto, via esfarelar sua reputação.

Os soldadinhos amestrados de preto e vermelho foram retirados de cena a ver se a massa os seguia de volta pra casa. Mas, ao contrário, as ruas foram se enchendo de uma turma nova: a turma da classe média com a camiseta número 9 do Ronaldo Fenômeno – ou a 10 do Ronaldinho Gaúcho.

Estive no primeiro ato de 2014 com essa nova coloração. Havia apenas um carro de som no MASP, carro comandado pelos moleques ainda não abobalhados do MBL que panfletavam ali suas ideias liberais. Demais, num grupo menor, havia a turma mais ligada ao filósovo Olavo de Carvalho, um pessoal falando de Foro de São Paulo, esconjurando os comunistas. Em redor, uns tantos curiosos, umas senhoras de chapéu capeline e poodle na coleira, uns senhores de bermuda, pólo, pulôver e sapatenis sem meia, uns quantos jovens que queriam ouvir uma cantilena diferente daquela recitada todos os dias na universidade.

Aquele era o núcleo duro em torno do qual uma massa cada vez maior se ajuntaria e engrossaria o coro, até que, em 2015, culminaria no Movimento “Fora, Dilma”, a maior agitação de rua de toda a nossa história.

Em números, a maior manifestação de 2015 — em 15 de março —, contabilizou, segundo a PM, 2,4 milhões de participantes. Os organizadores falaram em 3 milhões, espalhados pelo país. Já em 2016, no clímax do impeachment da Sra. Rousseff, os protestos do dia 13 de março, também na somatória do país, reuniram, de acordo com a PM, 3,6 milhões de pessoas; nas contas dos organizadores, 6,8 milhões. Eu estive em ambos.

Vi com meus próprios olhos — e as estatísticas confirmam. Quem estava nas ruas não eram os pobres, o povo da periferia, os desdentados e maltrapilhos, os garçons nordestinos que trabalham na madrugada, no Centro, as diaristas, os funkeiros.

Entretanto, diferente do que a impoluta diretora Petra Costa tentar insinuar, as ruas também não estavam lotadas de uma horda de bilionários donos de Porshes e Ferraris, latifundiários, banqueiros, grandes empreiteiros, professores das Federais ou artistas tarimbados. Se não era uma massa de famélicos, os sans-culottes, também não era a noblesse, a elite.

A massa que varreu as ruas do país era composta, eminentemente, pela classe média. Eram pequenos e médios empresários, advogados, rentistas, funcionários do mercado financeiro, PMs, alguns poucos estudantes, aposentados.

Quer dizer, quem se levantou contra o projeto autoritário dos petistas e, por associação, da politicada como um todo, de parte do judiciário e da alta intelectualidade prostituída pela elite da bufunfa, quem se revoltou contra isso foi a classe que se sentiu mais aviltada, foram os pagadores de gordos impostos, a turma que sofre pra manter a firma aberta e os funcionários em dia, a fatia da sociedade mais indignada – pois mais consciente – de ver o fruto do seu suor escoando pelo oleoduto e desembocando no mar de lama preta do Petrolão, lama que manchou a mão de Lula, o herói de Petra, e a dos bambambãs da construção civil, como os parentes da nossa vertiginosa diretora.

Falamos das maiores manifestações de rua da nossa história. E Petra — vejam que deslize — também se esqueceu de mostrá-las. Aliás, mostrou, sim, sejamos justos. Mas mostrou em brevíssimos flashes, sem dar a devida dimensão aos eventos, e, pior ainda, montou a sequência de imagens de modo a passar a impressão de que os manifestantes eram todos trogloditas desembestados, gente raivosa que rasgava o Pixuleco só por ter raiva dos pobres, senhoras riquinhas e alienadas, intervencionistas com farda militar e placa pedindo o fechamento do Congresso, evangélicos fanatizados e políticos radicais – como Bolsonaro.

Para a Petra, sete milhões de pessoas nas ruas de modo espontâneo e orgânico, quer dizer, sem nenhum grande partido ou agremiação estudantil as encabrestando, para ela, num documentário que fala exatamente desse período, essa massa não existiu. Só o que existia era o Temer.

Take 4: O Poder do Vampirão



ADVERTÊNCIA: Recomendamos aos leitores que antes de começarem a leitura deste trecho enrolem uma réstia de alho no pescoço, benzam um copo com água e apeguem-se firmemente num crucifixo. Pois falaremos de uma criatura tenebrosa, um espírito sinistro, um aliado do Tinhoso que por anos a fio circulou pelos corredores do Congresso — e mesmo habitou o doravante mal-assombrado Palácio da Alvorada. Falaremos do sujeito que, manobrando as forças sutis da natureza, hipnotizou todo um país, convenceu o Parlamento e o STF, comprou a alma do Cunha, endiabrou a Janaína Paschoal, e, ao cabo de cinco anos, utilizando-se de toda sorte de feitiços e macumbarias, deu, aos olhos da nação, a sua dentada fatal. Falaremos de Temer: o homem do golpe.

De acordo com sequência narrativa do documentário zonzo de Petra, as coisas aconteceram assim:

Lula, no melhor estilo Menudos — ou protagonista de chanchada —, surgiu como grande líder sindical nos anos 70, nos tempos da ditadura. Desde lá o PT veio se fortalecendo com o partido do proletariado, o grupo que iria, enfim, corrigir as injustiças históricas, injustiças que, como Petra disse logo no início do documentário, remontam a Cabral e seus escambos. Porquanto Lula, o obstinado defensor dos oprimidos, tentou várias vezes alçar-se ao cargo máximo da República. Todavia, só conseguiu a proeza em 2002, e só porque abrandou a verborragia agressiva, botou um terno Ricardo Almeida, semicerrou a barba e prometeu ceder aos poderosos, aos oligarcas, aos Andrade Gutierrez e cia.

Sendo assim, Lula, que já havia parido o Fome Zero, o Bolsa Família, e estava com a aprovação nas estrelas, para manter sua reforma, ou, como ele mesmo diz, sua revolução socialista por vias democráticas, para manter isso, ele foi, conforme Petra nos dá a entender, obrigado, forçado, coagido a se conspurcar, aceitando, dentre outras coisas, um casamento de conveniência com o PMDB — o Partido do Vampiro.

Eis aí, segundo a visão turva de Petra, o motivo que levou Lula ao Mensalão — aquele mencionado mais rápido que as advertências do ministério da Saúde em propaganda de cigarro.

O responsável por toda essa reviravolta? Michel Nosferatu Temer.

Entretanto, exorcizemos esse Demônio por uns minutos e tomemos um Dramin para fazer cessar a tontura. Vejamos se assim as coisas nos ficam mais claras.

***

Em 1990, o ainda barbudo e raivoso Lula, instruído pelo seu Merlin, o José Dirceu, pegou um avião, desceu em Havana e foi conversar com o ditador cubano Fidel Castro.

Um ano antes, os alemães haviam derrubado na base da marretada o Muro de Berlim. O governo soviético de Gorbachev, desde Chernobyl, do lets to talk? com Reagan, e da política de transparência e restauração (glasnost e perestroika), que abriu a Caixa de Pandora comunista para o mundo, desde ali, nos inícios da década de 80, este governo vinha se enfraquecendo.

O contexto macropolítico era o da Guerra Fria, do mundo dividido entra a potência ocidental-capitalista, os EUA, e a potência comunista, a URSS. Pois com a debacle política, social e econômica dos soviéticos, todo o Leste Europeu, diretamente coligado com Moscou, também entrou em crise. Em pouco, a mancha vermelha que se estendia para além da Cortina de Ferro foi desbotando. O comunismo, com efeito, foi deixando de ser uma força geopolítica ostensiva — pelo menos até a ascensão da China. Especialistas como Samuel Huntington anunciaram, com efeito, o fim do mundo bipolar.

Porém, por detrás da cortina de fumaça dos charutos cubanos, Lula e Fidel acertaram que a América Latina deveria se tornar o novo Bloco Comunista, justamente em substituição ao que fora perdido nas bandas do Dnieper.

Criaram, para este fim, o Foro de São Paulo.

Em resumo, o Foro de São Paulo é de uma vasta rede de cooperação política que conta, até hoje, com dezenas de partidos, grupos terroristas como as FARC, milícias, contingentes dos exércitos oficiais, alianças com potências internacionais como a China e a Rússia, capangas no sistema judiciário, colaboradores na mídia, interlocutores em centros estudantis e sindicatos etc. O objetivo da organização, desde o início, é colocar, pelos meios que estiverem disponíveis, todos os camaradas do comunismo moreno no topo do poder das nações do nosso subcontinente.

Cuba era o símbolo político do comunismo na região. O Brasil, por sua vez, era o primo rico, aquele que poderia bancar os intentos tirânicos de Chaves, dos Kirchner, de Evo, de Corrêa, e dos próprios Castros.

Isso em 90. Em 2002, Lula despachou o modorrento Serra e se tornou presidente — para delírio orgasmático do William Bonner, no Jornal Nacional, da Rede Globo, a mais poderosa emissora do país.

Pois em 2005, este Lula, já chefiando a quadrilha do Mensalão, apareceu no 15º aniversário do Foro de São Paulo e disse o seguinte:

“E eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática (sempre que aparecer democrática, leia-se socialista) da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo. E digo isso porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990, quando éramos poucos, desacreditados e falávamos muito. Foi assim que nós, em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela. E só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela.

Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente”.

E mais:

“Por isso, meus companheiros, minhas companheiras, saio daqui para Brasília com a consciência tranquila de que esse filho nosso, de 15 anos de idade, chamado Foro de São Paulo, já adquiriu maturidade, já se transformou num adulto sábio. E eu estou certo de que nós poderemos continuar dando contribuição para outras forças políticas, em outros continentes, porque logo, logo, vamos ter que trazer os companheiros de países africanos para participarem do nosso movimento, para que a gente possa transformar as nossas convicções de relações Sul-Sul numa coisa muito verdadeira e não apenas numa coisa teórica”.

Entre uma fala e outra Lula descreve como o Foro cooperou para a elevação de cada um dos seus amigos tiranetes ao poder.

Agora, em 2020, temos um saldo dessa brincadeira. Além de ser garoto-propaganda de ditadores assassinos nas Américas e na África, Lula, por meio dos esquemas de corrupção que encabeçou, foi durante todos esses anos o arrimo material dessa organização criminosa internacional. Os números da Operação Lava-Jato fora do Brasil são estarrecedores.

Houve constatação de propinas envolvendo o BNDES (quer dizer, o PT) e/ou a Odebrecht nos seguintes países: Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Panamá, Peru, República Dominicana, Venezuela, Angola e Moçambique.

Ao todo, contando com Lula e Temer, seis presidentes da região foram presos: Ollanta Humala e Alejandro Toledo (do Peru), Ricardo Martinelli (do Panamá) e Maurício Funes (de El Salvador). Ademais, delatores apontaram para os mesmos esquemas envolvendo Evo Morales (da Bolívia) e Michele Bachelet (do Chile). Sem contar as transações duvidosas feitas com Cuba, como no caso do Porto de Mariel, obra de modernização que custou mais de R$ 2 bilhões aos cofres brasileiros.

No total, a Lava-Jato investigou mais de R$ 12 trilhões em operações financeiras e repatriou R$ 745 bilhões.

Traduzindo. Lula chegou ao poder e orquestrou essa ladroagem estratosférica exatamente para bancar o projeto totalitário do Foro de São Paulo. Era este o seu papel específico na geopolítica da região. Foi precisamente para isto que ele chegou ao poder. Os projetos populistas, a discurseira, a imagem de salvador da pátria etc. tudo foi construído para que os petistas se mantivessem locupletados nos altos postos da República e o Foro, desta maneira, não perdesse, a um só tempo, seu estômago e coração, seu aparelho nutritivo e sua fonte vital.

É evidente que a queda do PT está umbilicalmente ligada com a descoberta desse esquema, descoberta que, mais que todos os outros fatores, como a violência grassante, o fracasso na educação, o sucateamento na saúde etc., motivou a ida da classe média às ruas, aos milhões.

E notem que esse esquema, a aliança pessoal de Lula com esses demônios bolivarianos, não tinha nada a ver com o PMDB. O Partido do Vampirão só entrou na roda quando a Inês já estava morta. E entrou porque tinha cacife para manter o lulopetismo em alta, e, também, claro, para abocanhar para si umas boas fatias desse bolo colossal feito de muitos reais, petróleo e sangue humano.

Não obstante, segundo as pupilas baças da nossa amabilíssima diretora, tudo o que aconteceu foi culpa das chicanas metafísicas do Vampiro Temer — com a contribuição de seu subordinado, o Bruxo Cunha.

Não teve Foro, assalto trilhardário, milhões na rua.

Vertigem, mon amis, vertigem.



Take 5: Manhê, foi tudo culpa do Moro!





Num boteco da Rua Monte Alegre, em frente a conceituada PUC, depois de a TV anunciar a prisão de Antônio Palocci, ex-ministro de Lula, uma jovenzinha de cabeça raspada, piercing argola no nariz e camiseta regata do movimento feminista, diz para uma outra jovenzinha de cabeça raspada, piercing argola no nariz e camiseta regata do movimento feminista:

— Ah, meu, isso é uma palhaçada, tá ligado? A corrupção no Brasil começou com Cabral, mas eles só prendem o pessoal do PT. Fascistas de merda.

— Putz, meu, nem fala. Esse povo não suporta ver pobre andando de avião, o filho da empregada entrando em universidade, preto se dando bem na vida.

Elas viram a um só tempo um copo de caipirinha.

— E esse juizinho? Aff, meu, que porre.

— Foi treinado nos EUA. Já sabe, né? Nossa, cara, não suporto mais esse país. Vou passar uns tempos em Amsterdã.

— Ah, eu já até comprei minhas passagens pra Machu Picchu. Preciso espairecer, me conectar com a natureza. Esse país me enoja.

Em março de 2014, quando eu debutava no curso de Direito da PUC — curso que por injunções do destino não concluí —, iniciava-se a Operação Lava-Jato, a mais ampla, profícua e providencial investigação já feita neste país. Seguindo os passos do doleiro Alberto Youssef, manganão de marca maior desde a adolescência, o Ministério Público e a Polícia Federal descobriram as pegadas do petista Paulo Roberto Costa. Era o fio de Ariadne.

A descoberta do roubo trilhardário do PT foi feita por um juiz de primeira instância de Curitiba. Um maringaense de olhar plácido e sereno emoldurado num rosto de patrício romano. Um homem de fala pouca, de tom brando, inalterável, sugerindo mesmo alguma timidez. Mas, acima de tudo, um magistrado destemido que colocou sua vida em risco para expor a esbórnia em que quase toda a classe política havia se metido.

Sérgio Moro é de família italiana, e a Itália, além da Torre de Pisa, do Coliseo e da macarronada é também — ou pelo menos já foi — o país da Cosa Nostra, da Máfia. Escondidos nos Apeninos ou debaixo das sombras geladas dos Alpes, existem muitos Don Vito Corleone (Marlon Brando), o Poderoso Chefão imortalizado pelo diretor Francis Ford Copolla.

Por isso, certamente o estudante Moro, aluno do curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no início dos anos 90, esteve de olho no desenrolar da Operação Mãos Limpas, devassa judicial que desbaratou um vasto esquema de corrupção envolvendo mafiosos e políticos no país dos seus antepassados.

Em 1996, coincidindo com o fim das Mãos Limpas, Moro chegava à magistratura. Também por esses tempos, Lula, o criador do Foro de São Paulo, ia construindo sua máfia particular depois que seu partido começou a espalhar jagunços pelas prefeituras e câmaras municipais, sobretudo no interior e no ABC paulista. Sobre a adolescência criminosa do PT, segue um trecho do artigo do historiador Daniel Aarão Reis, militante esquerdista dos tempos do regime militar e — atentem-se — um dos fundadores do partido:

Houve as denúncias de Paulo de Tarso Venceslau, ainda em 1993. Experimentado militante da ALN e do PT, amigo íntimo de Lula, revelara evidências incontestáveis sobre métodos corruptos e corruptores adotados pelo partido em São Paulo, envolvendo pessoas próximas de Lula. Demitido de suas funções na Prefeitura petista de São José dos Campos, em setembro daquele ano, Paulo de Tarso iniciaria um via-crucis em defesa do esclarecimento de suas denúncias. O processo se arrastou até 1998, quando, apesar de absolvido por uma Comissão de Ética partidária, Paulo de Tarso acabou sendo expulso do Partido, por exigência de Lula, num processo que fez lembrar o que havia de pior nas tradições do socialismo autoritário. As esquerdas petistas de então alegaram que era preciso fazer calar o denunciante, por inoportuno, consideradas as exigências da conjuntura eleitoral de 1998.

Em 1995, dois anos depois das denúncias formuladas por Paulo de Tarso, houve outras, desta feita formuladas em pleno X Encontro Nacional do PT, quando César Benjamin, importante assessor de Lula na campanha de 1994, apontou publicamente um processo de corrupção generalizada no PT, envolvido em jogos escusos, abandonando princípios éticos, ainda formalmente venerados, mas já desrespeitados alegremente na prática. Vaiado e ameaçado de agressão, o denunciante preferiu sair do Partido antes de sofrer um processo de expulsão.

Muitos já admitiam que germinavam verdadeiras máfias à sombra de prefeituras petistas do interior de São Paulo, fazendo todo o tipo de negócios e de negociatas, como licitações fraudadas, extorsões e propinas de diversos tipos, freqüentemente ligadas às concessões de serviços públicos (coleta de lixo, linhas de transporte urbano, etc.) para carrear finanças para o Partido. Alegava-se que era um mal inevitável, um tributo ao realismo político, a submissão a leis de bronze do jogo pesado da grande política, onde todos eram obrigados a fazer as mesmas coisas, sob pena de incorrer em atitudes ingênuas e amadoristas, fadadas à derrota política. Assim, as denúncias e outras restrições foram como pedras leves arremessadas. Abriam pequenos círculos, logo absorvidos pelo largo lago em que se transformara o PT, convertido em poderosa máquina partidária, desde 1995. Desempenharia papel decisivo neste sentido o deputado José Dirceu, eleito então presidente do Partido. Também ele antigo militante da ALN, notabilizara-se por ocasião de sua atuação na CPI que levara ao impeachment de Collor. Agora, exercendo seus conhecidos talentos de organizador, ao lado da liderança de Lula, conduziriam, ambos, o PT, finalmente, à vitória nas eleições presidenciais de 2002.

Desde os idos de 90, por conta própria, sem os caninos ameaçadores do Vampirão, o PT já roubava como praxe político, como meio para não só permanecer bem como para aumentar formidavelmente seu poderio — no Brasil e na América Latina.

Na Itália, o procurador Antonio Di Pietro e o juiz Giovanni Falcone foram os responsáveis por limpar as mãos dos capos e seus sequazes. No Brasil, Moro, inspirado sobretudo em Falcone, seria o incumbido de lavar a imundície do metalúrgico que virou o Capo dei capi tropical e dos seus mercenários de grife, os CEOS das maiores construtoras do Brasil, dentre eles os familiares da Petra — nome italianíssimo, por sinal.

Tendo, lá em 1998, se especializado no combate à corrupção, em cursos nos EUA — o que a esquerda, com seu chapéu de alumínio, toma como prova cabal de que ele seja “um agente do imperialismo americano” — em 2010 Moro encabeçou seu primeiro caso de relevo, a Operação Banestado, que descobriu trambiques bilionários no Banco Estadual do Paraná, na década de 90.

Entanto, o juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba só ganhou projeção com a mencionada Operação Lava Jato.

Moro, cumprindo nobremente sua vocação, foi trabalhando quieto, com obstinação, foi se fortalecendo, estudando os meios, agindo em círculos cada vez maiores e mais complexos, tudo sem alarde, sem holofote, até que conseguiu repetir o feito dos seus modelos italianos, venceu os Chefões, e se tornou, por conta disso, herói nacional.

A Petra Costa, porém, no seu ilustríssimo filme, leva-nos a raciocinar como as menininhas do boteco da PUC. Segundo a estrábica diretora, o fato de o PT, partido ladrão desde o início, ter roubado aos trilhões em conluio com políticos e empresários, para, principalmente, bancar tiranetes latino-americanos, para Petra, não foi a soma dessas sacanagens que levou o partido ao cadafalso. Para Petra e sua mãezinha fã incondicional da dona Dilma, para elas, o problema do PT, o que levou à crise do partido, foi Sérgio Moro, de acordo com as quais, um juiz imparcial, conchavado com os tucanos e emedebistas, servo dos Ianques.

Na narrativa de Petra, Moro só prendeu Lula para quebrar nossas empresas, facilitar a entrada de capital do Tio Sam, nos deixar mais pobres, abrir caminho para o fascismo bolsonarista, chegar ao ministério de Bolsonaro, e, em seguida, concorrer ele próprio à Presidência. Tudo novamente um grande esquema das elites para acabar com os pobres — mesmo que a elite tenha sido toda ela emparedada pelo Moro, mesmo que a Lava Jato tenha, veja só, prendido inclusive o Vampirão Temer e o Bruxo Cunha.

Nesse ponto, já não é mais vertigem, é delírio psicótico puro e simples.

Take 6: O Herói preso. E o Vilão esfaqueado?



Petra faz questão de mostrar o Cerco do Sindicato, dia em que os petistas tentaram impedir a prisão de Lula.

Aquele fim de semana foi dos mais tensos. Na sexta-feira, sai o pedido de prisão. Lula corre para o seu bunker, chama todos os aliados, convoca a militância e aparecem umas centenas de fanáticos — pouca gente para o Líder Político Mais Popular do Mundo, segundo o Obama.

Entra e sai, muvuca, cachaça, beijinho em um, abraço em outro, se entrega, não se entrega. Vira a noite. Sábado de manhã: missa. Padres comunistas se prestam ao ridículo de subir no palanque do sujeito que está tentando fugir da cana depois de condenado em três instâncias. Comício, mais cachaça, “Lula é uma ideia”. Cai a tarde, o tempo vai acabando. Todo o país de olho naquele oba-oba. In loco, só os petistas mais apaixonados e os políticos puxa-sacos. A PF chega ao local. A horda pede para Lula ficar. Lula faz charme, faz cena. O fotógrafo pessoal de Lula, Ricardo Stuckert, vai colhendo as imagens derradeiras, o olhar cansado do petista, o choro dos correligionários. Material para narrativa, inclusive para o filme de Petra. Mais cachaça, fim do prazo. Lula tenta sair, a massa não deixa. Na grade, muita gente chora, xinga, esperneia, arranca os cabelos. Lula sabe que não tem escapatória. Negocia com a turba. A turba se nega a deixá-lo. Ele escapa pelos fundos, entra no carro da PF, o carro é apedrejado pela massa, segue para o aeroporto. Lula, já preso, passeia de helicóptero, depois de avião, pousa em Curitiba. Enfim, é encarcerado. Fogos, buzinaço. Parece Copa do Mundo. Na mídia não se fala em outra coisa. Todos os canais registram a prisão do ex-presidente, do grande líder político, do ídolo das elites, o herói de Petra.

Lula, Chefe da quadrilha desde os roubos menores no ABC, desde o volumoso Mensalão e ainda do inacreditável Petrolão, sempre blindado pela alta cúpula do crime, foi pego por mixaria, R$ 770 mil. O Homem de Garanhuns deixou à mostra o Triplex no Guarujá, um apartamento que foi reformado pela empreiteira OAS, em troca de contratos fraudulentos.

Pois o Ministério Público apresentou a denúncia — com o odiado power point —, Moro condenou, a defesa recorreu, o Tribunal Regional Federal confirmou a condenação e aumentou a pena, a defesa recorreu, os recursos foram julgados e negados, a defesa foi ao STF, que manteve a prisão. O processo seguiu toda a liturgia legal, com ampla divulgação da mídia, tudo conforme o figurino do Estado de Direito.

Não obstante, a Petra, com sua voz de quem está intoxicada de Los Hermanos e Maria Gadu, vai narrando a história como se Lula, pobrezinho, fosse só um bode expiatório das elites do MDB, da Andrade Gutierrez e tutti quantti, que, para estancar a sangria da Lava Jato, precisava colocar alguém de confiança no poder, no caso: Jair Bolsonaro — Bolsonaro, pois o Temer, todo besuntado com o lodo do petrolão, já havia se queimado com o Caso Joesley.

***

OBS: a turma do MDB e PSDB estava mesmo doida para escapar da Justiça e parar com a Lava Jato. As evidências são abundantes e isso, veja só, isso a Petra mostra bem — até pede pra repetir o safadíssimo “tem que manter isso aí” do Temer, em alusão à propina que estava pagando para o Cunha manter o bico fechado. Agora, encaixar nesse mesmo acordão o Moro e o Bolsonaro… Vertigem. Como já ficou dito, Moro, não dando patacas à elite — independente do partido, pois há acusados das mais diversas agremiações, incluindo o PSDB — botou todo mundo para ver o sol nascer quadrado. Bolsonaro, por sua vez, é o símbolo do movimento anti-elite, anti-establishment. Ganhou destaque justamente batendo nos poderosos, prometendo enfrentá-los, recusar-lhes mamatas. Fez campanha de casa, com um celular.

***

Esses eventos, o Cerco do Sindicato e a Prisão do Lula, a Petrinha mostra com detalhes, de dentro, narrando o passo a passo do drama da Alma Mais Honesta Do País. O Mensalão, o Petrolão, as manifestações dos milhões, tudo isso essa honestíssima artista apresentou em breves flashes, em montagens distorcidas, caricaturais.

Agora, teve uma coisa que Petra não mostrou de jeito nenhum. Não mostrou, não mencionou. Talvez, de vertigem e surto psicótico, a doença da moça tenha saltado para a amnésia, quem sabe um Alzheimer. Tadinha. A dona do documentário que promete contar as verdades políticas brasileiras para o mundo esqueceu de falar da facada de Adélio Bispo em Jair Bolsonaro.

Pois eu conto:

Um sujeito ligado ao PSOL, partido-filho do PT, tenta assassinar Jair Bolsonaro no auge da corrida eleitoral que o militar carioca liderava. A onda anti-PT, anti-mídia, antipolíticos iniciada no meio dos manifestos de 2013, e consolidada no triênio 14-15-16, desembocou na escolha de um outsider para o cargo máximo da nação.

Bolsonaro, deputado isolado, sujeito conhecido por falas polêmicas em relação ao regime militar, ao combate à criminalidade (tem que se foder e acabô, dizia sobre o tratamento que daria aos bandidos) e às pautas de costumes, com seu tipão meio bronco e construindo sua fama política no meio dos anões e travestis do Programa Super Pop da Luciana Gimenez, esse homem, quando começou a andar pelo Brasil em 2014-15, passou a ser recebido com festas e foguetórios por apoiadores espontâneos, gente que o conhecia de seus vídeos virais na internet. Era ele chegar num aeroporto qualquer e uma massa vir recebê-lo aos gritos de “mito, mito, mito”, em referência aos seus posicionamentos, como se diz, politicamente incorretos, fala curtas e grossas que desconcertavam adversários políticos e opositores na mídia.

No espaço de três ou quatro anos Bolsonaro se constituiu num verdadeiro fenômeno popular. E sem a benção de artistas e intelectuais, sem clipezinho de campanha, sem movimento estudantil, sem sindicato. O povo foi atrás do Capitão por enxergar nele alguém alinhado com suas demandas, alguém que sabia falar grosso contra os poderosos, que prometia uma reforma política, o fim dos conchavos, o fim da roubalheira. Demais, falava de moralidade, de família, de Deus.

Pois, contradizendo todos os especialistas, Bolsonaro se tornou o favorito para o pleito de 2018. Lula estava fora do páreo. Seu escolhido era uma nulidade política. Ciro Gomes, homem forte da esquerda, foi traído pelos petistas. Tudo indicava uma vitória do temível Bolsonaro.

É neste contexto que aparece Adélio Bispo.

É setembro, falta um mês para as eleições. Bolsonaro está fazendo campanha em Juiz de Fora. Uma massa o segue pelas ruas e praças da cidade mineira. Uma onda de cidadãos de verde e amarelo. Agora, já não é só a classe média, como na época do impeachment. Bolsonaro atrai também gente mais simples, pois fala a língua do povão. Os apoiadores o carregam nos ombros, desfilam com seu novo líder, gritam palavras de apoio. Bolsonaro veste uma camiseta amarela com os dizeres, em verde: “Meu partido é o Brasil”. É um slogan contra a classe política, toda ela embarafustada na ladroagem.

De repente, se desvencilhando da turba, um homem se aproxima. Chega perto o suficiente, fica há um metro do candidato e acena como se fosse um fã. De súbito, saca da jaqueta uma faca de cozinha, enorme, e, num golpe certeiro, coisa de assassino de aluguel, encrava a arma na barriga do Capitão.

Bolsonaro esteve entre a vida e a morte. O país prendeu o ar. Se ele morresse, as coisas poderiam tomar um rumo perigoso.

Porém, depois de delicadas cirurgias e bastante tempo internado, o homem reage, diz que segue no páreo, que quer vencer as eleições.

Com isso, mesmo para o povo que lhe torcia o nariz por conta do seu jeitão ríspido, a sua imagem mudou.

A facada foi um fator importantíssimo para a vitória do Bolsonaro. Não digo definitivo, pois tudo indicava que ele venceria a despeito dessa fatalidade. Mas o ataque mudou o seu status. Antes considerado um monstro impiedoso que mataria a todos que não fossem brancos de olhos verdes, héteros e cristãos, depois do ataque Bolsonaro foi visto como ser humano, o sujeito que tinha família, que sentia dor e chorava.

Mesmo impossibilitado de fazer campanha por causa da facada de Adélio, Bolsonaro venceu o petista Haddad com vantagem de 10 milhões de votos. Não foi uma simples vitória eleitoral, foi uma vitória sobre a morte — não apenas sobre a morte de um homem, mas sobre a morte de um país.

E Petra Costa se esqueceu da facada. A democracia lhe deu mais essa vertigem.

Take 7: Aquele Que Não Pode Ser Nomeado



A despeito da facada e de toda campanha criminosa do establishment, Bolsonaro ganhou as eleições e na primeira aparição pública como o novo mandatário via-se na sua bancada quatro livros: a Bíblia, a Constituição, uma biografia do Churchill — antípoda do Chamberlain — e uma obra famosa de um certo filósofo brasileiro.

No ínicio do artigo disse que em 2013, depois das manifestações de rua, fui para casa e sentei a buzanfa na cadeira a fim de estudar a situação. À época eu não tinha posição definida, eu era apenas um rapaz latino-americano que queria compreender minimamente o cenário para não ser feito de idiota. Foi aí que um professor do cursinho que eu julgava mais sabido que os outros me indicou um curso sobre marxismo cultural, ministrado por um padre.

Eu era evangélico e, no fundo, pendia para a esquerda. Olhei o link meio desconfiado, de rabo de olho. Um padre? Enfim, cedi. Então me deparei, para minha surpresa e alegria, com um homem cultíssimo. O padre ia explicando a teoria marxista com muita desenvoltura, falando das suas origens em Hegel, citando em alemão, explicando as mutações no marxismo ortodoxo feitas por intelectuais como Gramsci, Habermas e Marcuse. O sacerdote falava com a segurança e autoridade que eu não via nos intelectuais esquerdistas que iam explicar as recentes turbulências políticas no Programa do Jô. Os falatórios empolados de um Safatle ou de uma Chauí me pareceram muito inferiores às aulas cativantes do padre. Mais a mais, aquilo que o clérigo falava batia com minha experiência, com aquilo que eu via. Como disse, venho da favela, e lá a degradação cultural é muito sensível. Meus colegas de escola viraram quase todos jovens drogados, analfabetos, sem perspectiva de futuro. Suas famílias eram esfaceladas. A maioria não tinha pai. Boa parte rejeitava, por influência do meio, qualquer religião.

O curso do padre dava uma explicação muito plausível para aquela crise moral que convergia inevitavelmente à crise política. Segundo o clérigo, tudo aquilo fora gestado maliciosamente por intelectuais e militantes diversionistas desde os anos 50, sobretudo nos EUA e na Europa. E dizia tudo isto dando nomes, vastas referências bibliográficas e exemplos concretos no Brasil contemporâneo. Fiquei convencido.

No fim desse curso o padre se disse aluno de um filósofo, o Olavo de Carvalho. Como tudo ali me chamara a atenção, o mestre daquele sábio não me podia passar batido. Fui atrás do filósofo. Achei-o primeiro no YouTube, em um vídeo sobre a Preta Gil, filha do então ministro da Cultura Gilberto Gil. No vídeo, Olavo, o professor daquele padre tão sério e ponderado, falava os mais cabeludos palavrões entremeados pelas mais escancaradas gargalhadas. Ele estava ridicularizando a mulher e o ministro para mostrar o absurdo cultural brasileiro. Gostei. Desta arte, parti para os seus escritos. A soma da agudeza das idéias com a exuberância do estilo me fascinaram. Entrei, por fim, para o seu curso de filosofia.

No meio do caminho descobri que Olavo fora escorraçado da cena pública brasileira por ser o mais arguto denunciador das diatribes da esquerda, do PT, do Foro de São Paulo, da revolução cultural.

Por conseguinte, ali em 2013-14 o olavismo era underground, era a contracultura. E vivi isso na pele. Foi depois desse contato com o Olavo que eu entrei na universidade, primeiro no mencionado curso de Direito na PUC, depois em História na USP, e agora no mesmo curso de História, só que no Mackenzie. Tive, portanto, a oportunidade de observar in loco aquilo que o Olavo chamava de hegemonia cultural esquerdista. Nos cursos de humanidades, praticamente todos os alunos, professores e associações estudantis com que tive contato são ligados, se não a partidos, pelo menos às agendas da esquerda revolucionária — feminismo, ecologismo, racialismo, gayzismo, sexlib, liberação das drogas, antissemitismo, antiamericanismo, antiocidentalismo, e, no limite, anticristianismo.

Deu-se que no meio das perturbações político-sociais de 2013-2018 o círculo de influência do filósofo radicado na Virgínia, antes adstrito aos seus alunos e leitores mais empenhados, expandiu-se formidavelmente. Para todo aquele movimento anti-PT, em particular, e anti-establishment, no geral, os livros, artigos e vídeos do professor Olavo foram como faróis no meio das trevas, da confusão, da loucura. Tanto é que nas grandes manifestações, as de 15 e 16, o único intelectual que recebeu homenagens rasgadas com direito a faixas, cartazes e menções dos agitadores nos carros de som foi o Olavo. Nada raro, no meio da multidão, alguém puxava o coro e a turma, contentíssima, estrepitava o conhecido slogan:

— Ão, ão, ão, Olavo tem Razão!

Olavo parecia mesmo ter razão. E o presidente eleito em 2018 sempre concordou com essa assertiva. Bolsonaro nunca escondeu sua afeição pelo filósofo que, atuando praticamente sozinho no plano da cultura, desde algum Jardim isolado para os lados de Richmond, abriu um rombo na Cortina de Ferro da intelectualidade esquerdista e propiciou que ideias liberais e conservadoras tivessem vez na mesa de discussões públicas. Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Russell Kirk, Roger Scruton e Eric Voegelin foram alguns dos tantos pensadores anti-esquerdistas que Olavo divulgou e que exerceram grande influência sobre um bom número de analistas (como Filipe G. Martins, Flávio Gordon, Flávio Morgenstern, Taiguara Fernandes, Evandro Pontes, Bernardo Küster e outros), divulgadores (os famosos youtubers) e militantes que bandearam para os lados da candidatura Bolsonaro, essa nova peça no nosso tabuleiro político.

Bolsonaro sabia da importância de Olavo para a revolução conservadora brasileira. Por isso, no dia da sua posse, o presidente homenageou o filósofo expondo na bancada o seu best-seller O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

A diretora Petra, entretanto, possivelmente fã de Harry Potter, equiparou Olavo, a quem a esquerda gosta de alcunhar como Guru do Bolsonaro, ou Astrólogo da Virgínia, ao terribilíssimo Lord Voldemort, Aquele-Que-Não-Pode-Ser-Nomeado. E não mencionou o filósofo nem mesmo no rodapé.

Bonus Track: Cerbero ou Hidra


Foro de São Paulo
Mensalão e Petrolão
A atuação heróica de Sérgio Moro
As maiores manifestações de rua da nossa história
Movimento anti-establishment
Ascensão de Bolsonaro
A influência de Olavo de Carvalho

Todos esses fatos e personagens fundamentais foram escanteados da narrativa de Petra. Qualquer um, à esquerda ou à direita, que, por ignorância ou má-fé, desconsidere esses eventos e essas personalidades, fatalmente contará uma história falsa ou incompleta.

No caso da Petra, como investigamos no artigo inicial, a questão é má-fé. Ela sabe de tudo isso; ela, assim como eu, presenciou esses fatos, ela conhece a importância dessas pessoas. Porém, a única intenção desse documentário é criar uma narrativa que inocente Lula e seus sicários perante as próximas gerações.

E isto porque se contada a história verdadeira, a história que diz que os pais da Petra, assim como os guerrilheiros dos anos 70, não lutavam por democracia, mas pela implementação do socialismo no Brasil; a história dos socialistas que, chegando ao governo, se abraçaram com os magnatas para se manterem no poder com o fim de patrocinar ditaduras que perseguiam minorias, que matavam de fome sua população; essa história, se for contada, impedirá que essa cambada de terroristas e psicopatas chegue novamente ao topo.

E a esquerda sem poder político, ou seja, sem os instrumentos concretos de ação para chantagear, para roubar, para perseguir os adversários, para matá-los se for preciso, sem essas coisas, a esquerda é como aquele Cão de Três Cabeças, o Cérbero, que, trancafiado no mais profundo dos infernos, por feio e perigoso que seja, não morde.

Entretanto, se, como vem se desenhando, eles continuarem propagando com sucesso essa ladainha — se Petra ganhar o primeiro Oscar para o Brasil com esse documentário, mais do que nunca essa narrativa vai se consolidar como a “oficial”, a que aparecerá nos livros didáticos, que será base para outros filmes, peças de teatro etc. —, se esse processo de desinformação, de fraude, de calúnia não for refreado ou vencido por um árduo trabalho no sentido oposto, dentro em pouco os comunistas retornarão ao poder, mas agora como a Hidra de Lerna, o dragão demoníaco multicéfalo que, quanto mais apanha, mais forte fica — aquele que faz ressurgir duas cabeças onde o adversário, com muito custo, cortou uma. Um monstro praticamente invencível.

O Brasil precisa escolher. Ou Cérbero, ou Hidra. Ou democracia, ou vertigem.

— Fábio Gonçalves é escritor e repórter do BSM.

Postado por Orlando TambosiFábio Gonçalves, repórter do Brasil Sem Medo, mostra o outro lado do pretenso "docudrama" de Petra Costa:



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