domingo, 12 de janeiro de 2020

Por que a política é tão imunda?

Por que a política é tão imunda?
    Via O Ultraconservador   
 Responder a essa pergunta não é tão difícil quando compreendemos que a política é um mundo completamente à parte, muito distante do mundo real, e possui as suas próprias regras e regulamentos. Na verdade, é necessário ser muito ingênuo para pensar que os gestores públicos responsáveis pela administração do país realmente se preocupam com a população. O que qualquer indivíduo pretende, quando assume cargos públicos, é se perpetuar no poder, estender o seu escopo de influência, e arregimentar para si próprio todas as possibilidades de enriquecimento ilícito. É verdade que existirão exceções, mas a verdade nos mostra como são poucos os indivíduos engajados em uma gestão pública honesta. E estes poucos honestos nada conseguirão fazer contra as inumeráveis hordas de corruptos que perpetuam o questionável jogo da política de acordo com os seus próprios interesses, arrastando coalizões de indivíduos imprestáveis consigo. Infelizmente, sempre haverão militantes e filiados a partidos políticos completamente incapazes de enxergar esta faceta da realidade. Boa parte deles realmente acredita que seus políticos favoritos – o chamado corrupto de estimação – são exemplos de engajamento e luta por causas nobres. Aqueles que assim pensam não poderiam estar mais errados. Na política, ninguém luta por um grupo, mas única e exclusivamente para benefício próprio. O grande problema é que a maioria das pessoas, na ausência de uma percepção profunda de situações desta natureza, mostra-se completamente incapaz de compreender qualquer coisa além das aparências. Indivíduos anestesiados para este aspecto da política refugiam-se em uma ingenuidade tão onírica quanto infantil, pois preferem a auto-ilusão de que lutam por alguma coisa, do que admitir que estão cercados por indivíduos imprestáveis, completamente desprovidos de propósitos e de princípios morais altruístas, e que estes tem por reais interesses enriquecer e arregimentar poder. E quanto mais imoral e ilícito for este processo, melhor. No entanto, a própria falácia do discurso político distorce estes padrões de realidade, apelando para utopias e sensibilidades emocionais que facilmente manipulam os de vontade fraca e os de pouco discernimento.

        Em virtude da política definir-se como um mundo à parte, que dispensa quaisquer considerações pela população, ela está inerentemente inserida em uma esfera que possui regras próprias. E neste mundo de voracidade, bestialidade, agressividade e incessante e ferrenha disputa por poder e influência, além de vasta e hostil persuasão política, qualidades como integridade, honestidade e responsabilidade são encaradas como fraquezas e não como virtudes. Desta maneira, os ambientes nos quais a “arte” política se perpetua estão inerentemente contaminados com os piores vícios e as mais sórdidas degradações do comportamento humano, tornando comum que toda a sorte de falácias se dissemine, e os ardis mais audaciosos consolidem-se em abomináveis falcatruas, que surrupiam o dinheiro público, menosprezam a população e menoscabam da confiança que esta depositou nos representantes públicos eleitos.

        Desta maneira, formam-se quadrilhas, facções e cartéis, que priorizam o seu próprio enriquecimento em detrimento da população, cujo bem-estar deveria ser a prioridade destes mesmos dirigentes. E assim, estatais, monopólios e políticas majoritariamente protecionistas são organizadas, de maneira a enriquecer os seus proponentes. Políticas desta natureza invariavelmente contribuem para empobrecer a população, e aumentar a desigualdade existente na sociedade brasileira, a mesma que a classe política afirma ser um problema que eles estão ansiosos em resolver. Não obstante, o governo brasileiro é completamente arregimentado sobre políticas protecionistas que promovem a desigualdade, para enriquecer uma minoria privilegiada, em detrimento de toda a população, que invariavelmente se torna mais miserável em virtude destas políticas desonestas. Para citar um exemplo, basta recorrer ao BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que, a despeito de seu pomposo e refinado título, não promove absolutamente nenhum desenvolvimento, salvo para aqueles poucos que se beneficiam de sua questionável generosidade financeira.

        Através do governo, o BNDES financia apenas grandes companhias e megacorporações, em detrimento de pequenas e médias empresas. Além de estar alicerçado em um sistema que não apenas facilita, mas promove a corrupção, o BNDES se presta a “auxiliar” justamente empresas que, tecnicamente, não necessitariam de créditos ou investimentos. Não obstante, isso tudo é ignorado em nome do favoritismo, da corrupção e do enriquecimento ilícito. Foi desta maneira – através do BNDES – que a JBS conseguiu arregimentar o monopólio no mercado de carnes, ampliando o seu faturamento em quarenta vezes em apenas dez anos. Além de tal prática fomentar deslealdade na concorrência – e invariavelmente tornar-se a responsável pela falência de inúmeras empresas do setor – o favoritismo e o protecionismo oferecido pelo governo revelou a existência de sórdidos cartéis e coalizões que unem os interesses da esfera privada com a condescendência do setor público. Desta maneira, o caminho fica livre para agentes, executivos e consignatários de grandes corporações que possuem conexões nas elevadas esferas governamentais buscarem a consolidação de benefícios próprios, a saber, enriquecimento ilícito, garantia de precedência no mercado – não através de um bom produto, mas através de monopólio –, e títulos e ações, entre outras benfeitorias escusas, cujos imensos dividendos serão gentilmente partilhados entre os agentes públicos que facilitaram ou colaboraram com a estruturação do sórdido esquema ilícito. No final, a despeito de ideologias, nomenclaturas ou filiações partidárias, a questão prioritária é sempre o dinheiro. Nunca a segurança ou o bem-estar da população, mas sempre o dinheiro.

Artigo originalmente publicado no jornal A Folha do Sudoeste, periódico bissemanal de Palmas, Paraná, edição de 19 a 21 de julho de 2017. 

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