sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A Crusoé tem fontes, não tem hackers

Antagonista
5 îles-hôtels pour se la jouer Robinson Crusoé | AD Magazine
Caro leitor,


Na sua edição especial de final de ano, a Crusoé publicou um artigo do ministro do STF Luís Roberto Barroso. O título é “O sequestro da narrativa”.

Neste momento em que o Ministério Público está sob ataque, acusado injustamente de tentativa de censura à imprensa, é recomendável ler o ministro Barroso. Ele resume bem no que consistiu esa ação de Glenn Greenwald e seus companheiros.

Escreveu Barroso:

“Há em curso no Brasil, no entanto, um esforço imenso para capturar a narrativa do que aconteceu no país. Muita gente querendo transformar a imensa reação indignada da sociedade brasileira e de algumas de suas instituições no enfrentamento da corrupção numa trama para perseguir gente proba e honesta. E, para isso, não se hesita em lançar mão de um conjunto sórdido de provas ilícitas, produzidas por criminosos – Deus sabe a soldo de quem.”

Um dos criminosos que roubaram as mensagens dos procuradores da Lava Jato — mensagens não autenticadas, enfatize-se — foi revelado pela Crusoé. Ele tem o apelido de Chiclete e, ao que tudo indica, era o cérebro tecnológico do grupo de hackers que repassou o material ilícito a Glenn Greenwald, que foi denunciado pelo Ministério Público por associação criminosa.

A Crusoé não hackeia, mas investiga, apura, prova e publica. Hackear não é jornalismo, é crime dos mais sórdidos.

A Crusoé tem fontes, não tem hackers.

Uma delas, por exemplo, forneceu à revista elementos que mostram o assalto aos institutos de previdência — como Previ, Petros, Serpros. Eles deveriam aplicar seus recursos para garantir a aposentadoria de servidores públicos.

No Brasil, contudo, se tornaram fontes inesgotáveis de recursos ilícitos nas mãos de partidos políticos.

Agora uma delação premiada inédita expõe as entranhas do esquema montado pelo PT e pelo MDB para roubar dinheiro dos fundos.

Um dos projetos que receberam injeção milionária de recursos tinha como sócio oculto, segundo o delator, o filho de um ex-senador.

Outros personagens que aparecem na história são bem conhecidos, como o ex-tesoureiro petista João Vaccari.

O repórter Fabio Leite teve acesso com exclusividade ao conteúdo da delação.

A delação, feita por um experiente operador, esmiúça o “papel dos agentes que promoveram e se beneficiaram dos desvios de dinheiro dos maiores fundos de pensão do país por meio de aportes em empreendimentos fadados ao fracasso”.

Leia um trecho da reportagem:

O delator chama-se Ricardo Siqueira Rodrigues, um empresário conhecido como “Ricardo Grande”, que intermediava investimentos de fundos de pensão em empresas privadas. Ele foi preso pela Lava Jato do Rio de Janeiro em abril de 2018, acusado de desviar dinheiro de uma aplicação. Ricardo Grande teve sua colaboração homologada em fevereiro do ano passado. Nos anexos obtidos por Crusoé, que ficaram públicos por alguns dias em novembro por decisão do juiz federal Vallisney Oliveira, do Distrito Federal, Rodrigues relata a trama engendrada por operadores como ele junto a gestores dos fundos de pensão, para beneficiar dirigentes e políticos do PT e do MDB. Um dos casos delatados envolve um fundo de investimento em participações chamado FIP Canabrava, criado pelo empresário Ludovico Giannattasio para financiar a construção de usinas de álcool e açúcar em Campos dos Goytacazes, no norte do Rio. Relatórios da CPI dos Fundos de Pensão e da Polícia Federal já apontavam que a empreitada resultou em prejuízos milionários aos fundos Petros, Postalis e Serpros, que puseram no negócio quase metade do total de 694 milhões de reais captados. Das quatro usinas previstas, só uma saiu do papel e, ainda assim, ficou no vermelho…

Há ainda um segundo delator, Henrique Barbosa, que contou o seguinte à Lava Jato:

…ele admitiu ter recebido 1 milhão de reais no apartamento de um doleiro na Barra da Tijuca, em julho de 2014, e entregue o dinheiro duas semanas depois nas mãos da secretária pessoal do então tesoureiro do PT, João Vaccari, em frente a um hotel em Ipanema. O dinheiro seria propina paga ao PT pelo empresário Arthur Pinheiro Machado para que os fundos de pensão controlados pelo partido investissem em seus negócios…

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